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domingo, 28 de outubro de 2012

Man In The Music "Contracapa e dedicatória"








Man in
           the Music

A Vida Criativa e Obra de
Michael Jackson
JOSEPH VOGEL
Prólogo por Anthony DeCurtis


DEDICADO A PRINCE MICHAEL, PARIS E BLANKET

“De muitas formas, o artista é a obra dele.”
                                                                  Michael Jackson


“No fundo, eu sinto que este mundo em que vivemos é realmente um grande, enorme, monumental orquestra sinfônica. Eu acredito que em sua forma primordial, toda criação é sons, e isso não é apenas ruídos aleatórios, mas música... Música governa o ritmo das estações, o pulso das batidas do coração, a migração dos pássaros, o fluxo e refluxo das ondas do oceano, o ciclo do crescimento, evolução e extinção. Isso é música, isso é ritmo. E meu objetivo na vida e dar ao mundo o que eu tive sorte de receber: o êxtase da divina união entre minha música e minha dança.”
                                                                                       Michael Jackson

Man In The Music "Prefácio"


PREFÁCIO

Este livro começou na época que foi, sem dúvida, a hora mais sombria de Michael Jackson. Por quase dois anos, seguinte ao infame documentário de Martin Bashir, Living With Michael Jackson, ele tem sido objeto de um frenesi da mídia. O julgamento dele atraiu mais de 2 mil reporteres, vindos de, pelo menos, 35 países diferentes. Recebeu mais cobertura que a guerra no Iraque e o genocídio no Sudão. Os peritos de tabloides, liderados por âncoras de noticiários de entretenimento, como Nancy Grace e Diane Dimond, fundiram-se, perfeitamente, aos noticiários, nos quais, a especulação sobre Jackson era o tópico principal em praticamente todos os noticiários e canais de entretenimento, praticamente todas as noites, por mais de seis meses. A maioria assumiu que Jackson é culpado e usou isso para ridicularizar tudo, da aparência dele aos filhos e as varias excentricidades dele. “A América está feita com este cara”, proclamou o conservador apresentador da Fox, Bill O’Reilly. “Ele é um maluco.”

Quando eu cheguei a Santa Maria, Califórnia, naquele verão, eu testemunhei um uma atmosfera circense. A mídia tinha se estabelecido na pequena cidade. Trailers, barracas e satélites em volta do tribunal; reporteres em todos os lugares, de pé em frentes às câmeras, conduzindo entrevistas e falando no celular. Centenas de fãs estavam lá também, é claro, e outros que, simplesmente, queriam vender alguma coisa, fofocar ou aparecer na TV.

O que rapidamente se tornou aparente, porém, foi quão pouco interesse havia nas evidencias, decência, nuança ou objetividade. Audiências e manchetes dependem de incessante fluxo de sensacionalismo, insinuação, boatos e especulação e isso foi exatamente o que a audiência recebeu. Jackson foi reduzido a uma aberração de circo. Ele foi o Homem Elefante dos dias modernos, sendo tratado como um ser humano em meio a uma multidão de espectadores de dedos apontados para ele. O jornalista bretão, Charles Thompson, chamou isso de “um dos mais vergonhosos episódios da história do jornalismo”. O observador político Jeff Koopersmith caracterizou isso como um “linchamento high-tech”.

Jackson, é claro, foi definitivamente absolvido de todas as acusações. Porém, o dano já tinha sido causado. A música revolucionária tinha sido sufocada pela cacofonia de barulho, os vídeos e danças apagados e substituídos pela imagem de um homem quebrado, caminhando cuidadosamente, para fora de um tribunal.

Quando eu comecei o livro, então, meu objetivo era recuperar Michael Jackson, o artista. Os escândalos e excentricidades foram cobertos exaustivamente (e a maior parte de forma especulativa e superficial). O verdadeiro trabalho criativo dele, parece, para mim, foi, ontem e hoje, infinitamente  mais rico, interessante e atraente. Isso é o que eu espero trazer de volta ao foco.

Nos últimos cinco anos, eu li quase todos os livros escritos sobre o pop star. Dado o impacto cultural dele, é extraordinário como pouco da substancia está disponível. Enquanto alguém pode encontrar uma vasta gama de livros sérios, profundos, sobre Elvis Presley ou Os Beatles, a maioria dos títulos sobre Jackson caem em duas categorias: autopublicações de fãs aduladores ou sensacionalistas tabloides “conta-tudo”. Houve algumas exceções, mais notavelmente, a autobiografia de Jackson, Moonwalk, e o volumoso livro de J. Randy Taraborrelli, Michael Jackson: The Magic and the Madness. Durante o período da minha pesquisa (e particularmente depois da morte dele) outros livros substanciais apareceram, incluído o catálogo de referencia de Chris Cadman e de Craig Halstead, Michael Jackson: For The Record, a eloquente coleção de ensaios de Armond White, Keep Moving: The Michael Jackson Chronicles, o editado volume de Mark Fisher, The Resistible Demise of Michael Jackson e o técnico, mais iluminador, livro do engenheiro musical, Bruce Swedien, In the Studio With Michael Jackson.

Enquanto cada um desses livros oferece importantes contribuições, no entanto, eu continuo sentindo falta de um livro que aprecie todo o corpo de trabalho de Jackson: álbum por álbum, música por música, isso foi esquecido. Meu primeiro modelo foi o clássico de Ian McDonalds, A Revolution in the Head: The Beatles’s records and Sixties. Embora, de diversas maneiras, meu livro acabasse sendo estruturado bem diferentemente – eu escolhi organizar por álbum e enfatizar o contexto e interpretação mais do que as inovações técnicas – Eu ainda espero que este livro desempenhe um papel similar em termos de profundidade, extensão e abrangência.

Embora esta não fosse a cobertura que eu estava planejando, grande parte da crítica musical (particularmente sobre Jackson) tem sido redutiva e condescendente. Eu queria escrever algo histórico e criticamente rigoroso, mas abordar o tema com menos cinismo e mais curiosidade: O que Jackson está tentando transmitir? O que o trabalho dele ilumina, provoca, expressa? Como é feito? E que tipo de reação (reações) ele esperava extrair? Eu concordo com o crítico literário, Mark Edmundson, que a arte da interpretação deveria, pelo menos, estar com a intenção de ver o mundo pela perspectiva do artista, para “chegar a uma versão do trabalho que o (artista), como nós o imaginamos, aprovaria e ficaria satisfeito”.

O livro que se desenvolveu a partir dessa filosofia foi, inevitavelmente, assustador de se escrever. Fazer justiça a qualquer artista é um desafio, mas Michael Jackson é muito único. Talvez o mais difícil tenha sido a) acumular bastantes informações confiáveis para desenvolver um claro senso de quando, onde, por que, como e com quem, o trabalho dele foi feito e b) desenvolver alguns degraus de fluência em todos os meios midiáticos que o trabalho dele utilizou: música, canto, dança, filmes, estúdio, tecnologia, etc. O que eu rapidamente percebi é que meu papel seria, necessariamente, ser mais pesquisador e entrevistador que autor, e que eu deveria permitir que as pessoas que o conheceram há mais tempo falassem, elas mesmos. Por fim,eu li uma ampla quantidade de relatos internos, revisões e análises do trabalho de Jackson; eu li todas as entrevistas que Michael Jackson deu desde 1977 em diante; eu li tantas entrevistas, quanto eu pude encontrar, das pessoas que trabalharam com ele, incluindo Quincy Jones, Bruce Swedien, Rod Temperton, Teddy Riley, Rodney Jerkins, Matt Forger, Brad Buxer e Bill Bottrell. Talvez, o mais esclarecedor, porém, foi a entrevista pessoal que eu conduzi com muitas dessas pessoas e outras que trabalharam em estreita colaboração com Jackson. Falar com os parceiros criativos de Jackson: produtores, engenheiros, diretores musicais e técnicos, forneceu uma fascinante visão interna de como Jackson operava como um artista e como específicas músicas e álbuns surgiram. Muitas das pessoas com quem conversei tinham raramente falado sobre Jackson em público antes. Mas todos foram generosos com o tempo deles e ficaram contentes que o Jackson que eles conheceram fosse, finalmente, representado em um livro.

Também foi de grande ajuda na minha pesquisa a Rolling Stone, cujos arquivos forneceram rico e relevante material de, aproximadamente, todos os estágios da carreira de Jackson. Além disso, os arquivos da revista Times, The New York Times, Ebony e os arquivos dos sites de Michael Jackson foram inestimáveis. O espólio de Michael Jackson foi, também, muito generoso com o retorno e o apoio deles.

Infelizmente, eu nunca consegui entrevistar Michael Jackson. Na noite antes de ele morrer, eu estava trabalhando neste livro. Eu esperava entrevistá-lo em Londres, durante a série de concertos dele, This Is It. Eu soube de uma rara entrevista que ele deu a Ebony, em 2007, que ele estava ansioso para voltar a focar no trabalho dele, para ser percebido com um artista, não com excentricidades de tabloides. Mas, então, veio a trágica notícia.

Eu fiquei aturdido. Como muitas outras pessoas, eu cresci com Michael Jackson. Ele significa para mim, o que artistas transformativos com Elvis Presley, John Lenon e Bob Dylan significaram para as gerações anteriores de pessoas jovens. A primeira vez que eu vi a apresentação da Motown 25, aos nove anos de idade, eu fui, absolutamente, cativado. Eu costumava colocar a minha VHS: Michael Jackson: The Legend Continues para tocar o tempo todo e eu costumava pedalar minha bicicleta até a escola escutando músicas como “Beat it”, “Man In the Mirror” e “Black or White”, no meu Walkman. Com o passar doas anos, meus interesses musicais mudaram e se desenvolveram, mas minha fascinação por Michael Jackson persistiu, eu sempre apreciaria o trabalho dele de novas formas e em novos níveis.

Com a morte dele, então, feio um profundo sentimento de perda e tristeza sobre o que poderia ter sido. Mas como Jackson colocou, premonitoriamente, apenas dois anos antes (citando um dos heróicos artistas dele próprio, Michaelangelo): “Eu sei que o criador partirá, mas a obra dele sobrevive. Isto é escapar da morte, eu tento ligar minha alma ao meu trabalho.” Isso, talvez, tenha sido o mais revelador comentário que ele já fez sobre o que ele esperava do legado dele.

Criando este livro, eu mergulhei neste trabalho cheio de alma. Com cada visita retornada, novidades e excitantes descobertas desenroladas.

É minha esperança que Man In The Music irá inspirar uma experiência similar para outros, servindo como uma porta de entrada para o mundo criativo de um dos mias originais artistas do século passado.

JOSEPH VOGEL
Abril de 2011




Man In The Music "Prólogo"

PRÓLOGO

ANTHONY DECURTIS

Durante o verão de 2001, eu trabalhei como escritor chefe para o que foi intitulado como Michael Jackson 30th Celebration, dois concertos que deveriam ser realizados no Madson Square Garden, em New York, em 8 e 10 de setembro. Os shows seriam filmados e mais tarde mostrados na televisão em formato editado e disponível em DVD. O aniversário celebrado foi o lançamento de 1971, “Got To Be There”, o primeiro single solo de Jackson no Top 5 hit. A ocasião era parte da formação para o lançamento de Invincible, o primeiro álbum de material novo dele em seis anos. Invincible viria no mês seguinte e, embora ninguém soubesse disso naquela época, seria o ultimo álbum de estúdio de Jackson.

A preparação para o show foi caótica, para dizer o mínimo. David Gest era o produtor – eu preciso dizer mais? – e convidados especiais incluindo pessoas como Liza Minelli (com quem Gest, mais tarde, se casaria e se divorciaria), Marlon Brando, Elizabeth Taylor e outras estrelas que seriam vistas freneticamente deslocadas na arena do concerto pop, especialmente naquele momento, quando Jackson precisava mais que qualquer coisa redefinir-se em termos contemporâneos. Para mim o stress daquelas semanas trabalhando no roteiro foi aumentado pelo fato de que eu me casaria em 8 de setembro, no interior do estado de Nova Iorque. Consequentemente, eu não poderia comparecer ao concerto, portanto, todo o esforço, bizarro e excitante que isso foi, parecia-me um pouco abstrato.

O evento que marcou aquele período para mim foi a manhã de ensaio a que eu compareci dois dias antes do primeiro show. Os vinte mil lugares, ou quase, estavam vazios, reservados para outros membros do pessoal do filme, trabalhadores configuravam o local para os concertos e representantes de vários artistas agendavam ensaios para a noite. Whitney Houston estava na cena parecendo vazia e distante. No palco, Michael Jackson, os irmãos dele e a banda estavam ensaiando.

Michael Jackson não estava usando as roupas de palco; eu me lembro dele usando calças largas e camiseta larga e óculos de leitura para olhar documentos que ele estava consultando. Se ele não falasse no microfone, eu não estava perto o bastante para escutar o que ele estava dizendo. Porém, Jackson sempre falaria no microfone para se certificar de que todos no palco podiam escutá-lo e o microfone estava na mão dele todo o tempo, ocasionalmente, captando a voz dele, mesmo quando não estava perto do rosto dele. A primeira preocupação dele era em preparar a coreografia para o show e era evidente que ele estava relaxado e completamente no controle. Ele falou primeiramente para o diretor musical, Greg Phillinganes; o tom dele era sempre gentil, respeitoso e profissional. Jackson estava muito focado em como ele queria os movimentos dele e aqueles nos quais os irmãos dele é que trabalhariam com a música, onde ele estaria quando as batidas fossem marcadas, os estímulos que ele precisava na música, para fazer os movimentos dele fluírem com impacto mais irresistível.

Quando ele falava fora do microfone, alguém poderia ver Jackson e Phillinganes concentrados e rindo. Eles queriam fazer as coisas direito, mas eles também estavam se divertindo, excitados com os iminentes shows. Jackson parecia um pouco distante dos irmãos dele, embora não frio ou intransigente, apenas distante. Na maior parte, ele parecia, muito, um músico e artista que sabia exatamente o que ele queria, mas também apreciava os necessários esforços feitos por outros. Ele sabia que o nome dele estava na marquise e qualquer coisa que acontecesse, em ultima análise, refletiria nele, em ninguém mais.

Por anos, eu tenho escrito sobre Michael Jackson, muito, assistido às apresentações dele, muitas vezes, e discutido e debatido sobre ele em noticiários e programas de televisão sobre entretenimento. No mês seguinte, eu conduziria uma longa entrevista telefônica com ele, elaborada em perguntas enviada pelos fãs (e selecionadas pelos inúmeros assessores dele), que seria transmitida ao vivo na internet. Contudo, eu nunca o tinha testemunhado em situação como essa e era algo impressionante de se ver.

Isso me lembra, antes de tudo, de por que todo mundo se preocupava com Michael Jackson desde o início. Ele estava entre os mais incríveis artistas que eu já vi e a música dele podia ascender a pista de dança instantaneamente. Sempre que eu escuto a música dele, eu descubro coisas novas para amar nelas, toques inventivos que eu nunca tinha percebidos antes. Neste específico sentido, a morte dele foi uma benção: forçou as pessoas a reencontrar a arte dele e perceber, mais uma vez, quão importante ele é para elas, o quanto a música dele significa para a vida delas, para pessoas jovens que não cresceram com Michael Jackson, isso forneceu, talvez, a primeira oportunidade de escutar a música dele livre dos clichês preconceituosos sobre ele.

No entanto, não é o momento de desculpas. Não há dúvidas: Jackson deve suportar alguma responsabilidade pela razão de ele ter se tornado, eventualmente, pouco mais que uma piada, nos anos anteriores a morte dele. O comportamento dele e excentricidades frequentemente desviraram a atenção do trabalho dele. O que antes era uma ambição estimulante se tornou megalomania. Uma vez, em entrevista a Rolling Stone, para a matéria de capa, eu perguntei a Janet Jackson se ela poderia aceitar a ideia de que ela poderia, possivelmente, fazer um álbum e não vender. Ela me deu um olhar bondoso e zombeteiro como se eu tivesse, de repente, começado a falar uma língua estrangeira que não seria possível esperar que ela entendesse. O que poderia possivelmente significar criar um “ótimo” álbum que as pessoas não comprassem?

Essa é a ética comercial que os Jacksons assinam e Michael era mais fervorosamente crente nisso que Janet. Há compreensíveis razões para isso, assim como pessoais, mas não há dúvida de que o esforço de Michael em recriar o sucesso e o impacto de Thriller, para reviver o momento que fez o mundo dar valor a ele, prejudicou-o. Ainda, também não pode haver dúvidas de que a mídia caiu na armadilha psicológica que Jackson, inconscientemente, criou e avaliou todos os trabalhos pós-Thriller dele com o padrão comercial inatingível, para o inevitável desapontamento dele e da maioria.

Mas como Joe Vogel convincentemente demonstra neste ótimo e compreensivo livro, Jackson criou incrível e importante trabalho durante a carreira dele. Quando Jackson morreu, o homem e os problemas dele tinham ofuscado completamente a música. Como todo mundo que prestasse muita atenção em Jackson, eu, é claro, entendi como ele sentia o palco com o lugar da mais profunda felicidade. Até aquela noite no Madson Square Garden, eu pensava que era simplesmente sobre um incandescente artista queimando todas as outras questões com uma forte e destemida chama.

Quando eu vi Michael se preparar para a apresentação do trigésimo aniversário dele com inegável facilidade e tranquilidade, porém, ficou claro que ele estava feliz no palco porque ele era, antes de tudo, um artista; e a música dele significava mais para ele que qualquer outra coisa. Eu encontro aquele mesmo foco constante e comando que eu e testemunhei àquela noite, nas páginas de Man In The Music, um tributo que o trabalho fascinante de Michael Jackson mais que merece e faz jus.

Anthony DeCurtis é um contribuinte editor da Rolling Stone, onde o trabalho dele tem aparecido por mais de vinte e cinco anos e ele, ocasionalmente, escreve para o New York Times, assim como para a Rocking My Life Away. Ele é também editor do Present Tense: Rock & Roll na Culture e co-editor da Rolling Stone Illustred History of Rocking & Roll e The Rolling Stone Album Guide (3º edição). O ensaio de acompanhamento dele sobre o box set de Eric Clapton, Crossroad, ganhou o Grammy Award na categoria de Best Album Notes. Ele tem PhD em literatura americana e ensina em programas de escrita para a Universidade da Pensilvania.



























     
                  Jackson em um momento de descoberta na Bad World Tour em 1987.

Man In The Music: Introdução II "A Personificação da Música"


 A PERSONIFICAÇÃO DA MÚSICA


























 


Jackson performando a icônica rotina dele,
“Billie Jean”, na Victory World Tour”, em 1984.


O corpo de Jackson era a tela mais instintiva dele. Ele era um dançarino até o âmago. Ele dançava em particular como forma de se exercitar e se libertar. Ele dançava enquanto gravava no estúdio. No palco, o corpo dele parecia possuído pela música. “Eu sou um escravo do ritmo”, ele explicou. “Eu sou uma tela. Eu apenas vou com o momento. Você tem que fazer desse jeito, porque se você pensar, você morre. Performar não é sobre pensar, é sobre sentir.” Coreografia, para Jackson, era como linhas em uma pintura: dava bordas dentro das quais trabalhar. Não era sobre contar passos; era sobre explorar e se expressar dentro daqueles limites.

Nesse espaço criativo, ele se tornaria a “incorporação” de cada parte. “Quando você está dançando”, ele revelou, “você está apenas interpretando a música e os sons e o acompanhamento. Se existe um baixo, se existe um violoncelo, se existe uma corda, você se torna a emoção que esse som é.” Esta habilidade de ocupar a música completamente foi o que o destacou como dançarino. Muitos dos movimentos dele tinham sido feitos anos antes, incluindo o moonwalk; mas ele se aprofundou neles, compreendendo o que eles poderiam transmitir e se apossou deles.


Man In The Music: Introdução III "Uma Educação Incomum"


 
UMA EDUCAÇÃO INCOMUM
 
Entender Jackson como um dançarino e performer é crucial para entendê-lo como um cantor e compositor, pois, se, alguma vez, existiu alguém que exemplificou o título “cantor e dançarino”, foi Michael Jackson. Ele aprendeu com os melhores: showmens como Sammy Davis Jr., James Brown, Jackie Wilson, Fred Astaire e Gene Kelly. Quando ele tinha apenas oito anos de idade, ele lhes assistia, do lado do palco, em legendários teatros como o Regal e o Apolo, absorvendo e aprendendo.

A maior revelação para o jovem Michael Jackson foi o “Padrinho do Soul”, James Brown. Como Elvis Presley foi para o jovem John Lenon, James Brown foi para Michael Jackson, embora, tivesse a vantagem de ver o ídolo dele de perto e pessoalmente. “Depois de estudar James Brown das coxias”, ele se lembra, “eu aprendi todos os paços, todos os grunhidos, todos os giros e voltas. Eu tenho de dizer, ele daria uma performance que te deixaria exausto, esgotá-lo-ia, emocionalmente. Toda a presença física dele, o fogo saindo dos poros dele, seria fenomenal. Você sentiria cada gota de suor no rosto dele e você saberia que ele estava esquentando. Eu nunca vi nenhuma performer como ele.”

Não foi penas a performance e dança de James Brown que Jackson incorporou. O característico ritmo de canto de Brown, o staccato vocal dele (com sílabas curtas, grunhidos, gritos e exclamações), e o puro funk elementar dele está todo na música de Jackson. Jackson, é claro, adaptou e fundiu o estilo de Brown com outros, mas Brown foi, inquestionavelmente, a mais profunda influência, inicial, de Jackson.

A educação musical de Jackson continuou na Motown, onde ele foi cercado por alguns dos mais renomados músicos de uma era, incluindo Marvin Gaye, Gladys Knight e Smokey Robinson. Quando garotinho, ele foi especialmente fascinado por Diana Ross, com quem ele morou durante meses, depois de chegar a Los Angeles, em 1970. “Ela era arte em movimento”, ele escreveu mais tarde. “Eu a observei ensaiar um dia, no espelho. Ela não sabia que eu estava observando. Eu a estudei, o jeito como ela se movia, o jeito como ela cantava, o jeito que ela era.” Quando jovem adolescente, ele também ficaria no estúdio com Stevie Wonder, observando-o gravar um dos álbuns clássicos dele, incluindo Song in the Key of Life. “Ele sempre viria para o estúdio curioso sobre como eu trabalhava e o que eu fazia”, Wonder se lembra. “‘Como você faz isto? Por que você faz isto? ’ Eu acho que ele entendeu claramente, por ver várias pessoas fazerem a cena da música, que isso, definitivamente, funcionou.” Jackson, mais tarde, se referiu a Stevie Wonder como um “profeta musical”.

              James Brown, o “o homem mais trabalhador do show business”, em
              uma pose característica. Brown foi a maior influência de Jackson no início.


Houve muitas outras influências importantes durante os anos dele na Motown, que ajudaram a habilidade natural de Jackson: Suzanne de Passe, a primeira produtora dos Jacksons 5, coreografa, estilista, Relações Públicas, instrutora e um mãe substituta; um grupo de talentosos compositores e produtores chamado  “A Corporação”,  que incluía Deke Richard, Freddie Perren e Alphonzo Mizell; e Hal Davis, quem escreveu muitas das músicas da Motown dos Jackson 5 e de Michael, desde “I’llBe There” a “Dancing Machine”. Mas sem dúvidas, ninguém teve um impacto profundo no desenvolvimento do jovem Michael Jackson quanto o próprio criador da Motown, Berry Gordy. Gordy ensinou a Jackson perfeccionismo e meticulosa atenção a detalhes no estúdio. Se uma música precisasse ser tocada mais de cem vezes para ficar certa, eles a gravariam mais de cem vezes. Era um treinamento exaustivo, especialmente para um garotinho, mas Jackson aprendeu. “Eu nunca esqueci a persistência dele”, ele mais tarde escreveu. “Eu observava todos os momentos das sessões quando Berry estava presente e nunca esqueci o que eu aprendi. Atualmente, eu uso os mesmos princípios.”

Mas talvez o maior impacto de Gordy sobre Michael tenha sido incutir nele a ambição para ultrapassar classificações, conquistar o mundo da música o do entretenimento. Gordy era um experiente e perspicaz executivo, que sentia que a música negra podia (e deveria) alcançar as massas multirraciais e, até, a audiência internacional. Embora alguns sentissem isso como uma ambição comercialmente motivada, a princípio, que santificavam ou integralizavam a música negra, não há dúvidas de que fez significantes invasões em uma indústria que era, naquele momento, ainda quase segregada racialmente.

O projeto de Gordy foi importante, não apenas porque criou um clima para que artistas como Jackson fossem aceitos pela audiência branca e internacional, mas também porque era uma ideologia de inclusão, que Jackson, mais tarde, adotaria de todo o coração. Pelo resto da carreira, ele se recusou a ser rotulado por raça, gênero, nacionalidade e tudo o mais. Música, ele sentia, era universal. E um garoto de Gary, Indiana, podia ser o “Rei”.

Essa filosofia foi, na verdade, grande parte do motivo pelo qual Jackson foi atraído por Quincy Jones. Jones, ele explicou em uma entrevista, em 1980, era “ilimitado musicalmente”: ele fazia tudo, desde jazz a pop e partitura clássica. Ele era, também, “multicolorido”, o que significava, para Jackson, que o trabalho dele não seria encaixotado em “música negra”.

Na verdade, enquanto Jackson era claramente enraizado musicalmente, e de outras maneiras, nas tradições afro-americanas, a variedade de influências se desenvolveu muito além de qualquer raça ou etnia. “Eu amo boa música”, ele explicou. “Não tem cor, não tem limites.” Os próprios interesses musicais de Jackson, inicialmente, estenderam de funks pioneiros como P-Funk e Sly and the Family Stone a grupos de pessoas como Carpenters e os Mamas & the Papas; de Broadway a cantores de baladas, como Julie Andrews e Barbara Streisand e sensações disco como o Bee Gees.

Jackson adorava experimentar arte como um fim em si mesma (o que ele, frequentemente, chamava de “a mágica”), mas ele também queria entender a “anatomia” da arte. Ele queria entender tudo sobre como a arte funcionava, a história da arte, por que tinha resistido à prova de tempo, quais eram as possibilidades. Quando ele conheceu Quincy Jones, no final dos anos setenta, embora ainda um adolescente, ele já tinha, aproximadamente, uma década de experiência aprendida de primeira mão com alguns dos mais renomados músicos e compositores na indústria. Jones descreveu-o como uma “esponja”.  “Ele queria ser o melhor em tudo... absorver tudo”, Jones disse. “Ele foi ao modelo máximo de cada categoria para criar uma atitude e pessoa que seria inigualável.”

Man In The Music: Introdução IV :"Um Mundo de Imaginação"



UM MUNDO DE IMAGINAÇÃO

Durante a vida dele, Jackson sempre teve o dedo dele no pulso da indústria da música. Como um fã, e como um artista, procurando por novos sons e ideias. Ele era fascinado tanto pela “mística” quanto pela artística dos dois maiores fenômenos pop antes dele: Elvis Presley e os Beatles (não foi coincidência que ele ter casado com a filha do primeiro e comprado o catálogo do segundo). Quando ele pensava no próprio legado artístico e cultural, Presley e os Beatles permaneciam no fundo da mente dele. O interesse musical dele, contudo, também incluía influências menos óbvias, tais como Led Zepelin, Yes, Grace Jones e Radiohead. “Eu tive todo tipo de fitas, e algumas que as pessoas, provavelmente, nunca pensariam que eram minhas”, ele disse uma vez. Esse vasto reservatório de conhecimento musical apareceu através da música dele. Para “Wanna Be Startin’ Something”, ele incluiu um grito africano inspirado pelo saxofonista de Camarões, Manu Dibango, o “Soul Makossa”; em “Little Susie”, ele usou uma seção da obra de coral do compositor francês Maurice Duruflès, Requiem Op. 9; em “2Bad” ele apresentou samples dos pioneiros de hip-hop, Rum-D.M.C. Como Greg Tate observou, Jackson estava disposto a pegar “todos que, ele pensava, fariam a expressão dele próprio mais visceral, moderna e excitante.”

                    


Charlie Chaplin (como o Little Tramp)
e Jackie Cogan no filme The Kid. Jackson 
idolatrava Chaplin e recriou essa imagem para
a capa de “Smile” dele.



Uma das coisas que fez Jackson único como um artista, porém, é que muitas das influências eram nada além de modernas e contemporâneas. Quando perguntado qual foi a maior inspiração dele para Thriller, ele não responde Prince ou The Police; ele dizia que foi o compositor russo do século dezenove, Tchaikovsky. “Se você pega um álbum como Nutcracker Suite”, ele explicou, “todas as músicas são excelentes, todas elas. Portanto eu dizia a mim mesmo: ‘ Por que não pode haver um álbum pop (assim?)’” Isso não era apenas uma visão da consistente qualidade que música clássica inspira. Desde a juventude dele, Jackson tem escutado compositores como Tchaikovsky, Debussy, Prokofiev, Beethoven, Bernstein e Copland. Jackson era, particularmente, atraído por peças Românticas e Impressionistas, que continham melodias fortes e vívidas, cores emocionais. Para Jackson, música era sempre muito visual; ele era atraído, portanto, para peças as quais eram ligadas, ou evocavam, algum tipo de presença visual, como o Arabesque Nº 1, de Debussy, ou Peter and the Wolf, de Prokofiev. Influências clássicas permanecem na obra de Jackson, às vezes, até literalmente, como prelúdios ligados à própria composição dele.

Jackson era, também, um devotado fã de musicais, incluindo The Sound of Music, Singin’ in the Rain, My Fair Lady e West Side Story e incorporou o estilo deles tanto nos vídeos, quanto nos álbuns dele. Essa é uma influência que, algumas vezes, o colocou em desacordo com tradicionais críticos de rock, que sentiam que ele era muito “teatral”. Mas Jackson nunca desviou do amor dele por show de música. Ele era também obcecado por filmes: todos os velhos filmes da MGM, tudo da Disney, Spielberg, Lucas, Hitchcock e Francis Ford Copola. Ele assistiria a filmes como E.T, The Elephant Man e To Kill a Mockingbird, repetidamente, e choraria todas as vezes. “Em filmes, você vive momentos”, ele explicou. “Você tem a audiência por duas horas. Você tem o cérebro deles, a mente deles, você pode levá-los a qualquer lugar que você queira levá-los. Você sabe, e essa ideia é fascinante para mim, que você possa ter o poder de mover as pessoas, de mudar a vida delas.”

O intenso amor de Jackson pela tela de prata geraria muitas paixões. Ele era fascinado por todas as coisas de Shirley Temple e Elizabeth Taylor (os boatos sobre “altares” para ambas era verdade). Ele ostentava uma coleção de desenhos animados maior que Paul McCarteney. Ele poderia assistir aos Três Patetas por horas sem fim. Ele, famosamente, alegava que ele “era Peter Pan”, tão grande era a afinidade pelo icônico herói de J.M. Barrie. Jackson estudava o trabalho de todos os principais dançarinos do século, incluído Fred Astaire, Gene Kelly, Bob Fosse, Martha Graham, Alvin Ailey e Jeffrey Daniel (todos os quais igualmente o admiravam). A mais profunda afinidade dele, porém, poderia ter sido com a lenda do cinema, Charlie Chaplin, uma figura paradoxalmente similar, que foi criado na pobreza e se tornou o maior entertainer da época dele. Alguém pode descobrir os movimentos de Chaplin, estilização e combinação de exuberância e emoção através do trabalho de Jackson.

Não apenas ele observou e escutou a essas pessoas, ele leu sobre elas. Jackson era um leitor voraz. Desde a infância dele até os anos finais, ele visitaria livrarias e viria para casa com pilhas de livros. A biblioteca pessoal dele continha mais de 20 mil títulos, incluindo biografias, poesia, filosofia, psicologia e história. Jackson lia sobre a escravidão afro-americana e o movimento dos direito civis, sobre Edson e Galileo, sobre religião e espiritualidade. Ele lia novelas de J.M. Barrie e Charles Dickens. Ele lia Blake, Emerson e Wordsworth. Ele, famosamente, forçava a equipe dele a ler a biografia de P.T. Barnum e, frequentemente, citava passagens das biografias de Michaelangelo e Albert Einstein.
 

Jackson atuando com diretor no set do vídeo musical dele, Liberian Girl,em 1988. 
Por  essa época, ele já tinha revolucionado a mídia e preferia chamar os vídeos dele de  
"curta-metragens".       


 

Quando Jackson fazia um álbum ou dançava ou criava vídeos musicais, ele estava puxando de um imenso depósito mental. Isso era um diverso e vibrante mundo de imaginação, que, para Jackson, era apenas tão real quanto à vida dele, senão, ainda mais.

Man In The Music: Introdução V "Incorporando Mídia"


INCORPORANDO MÍDIA

























 

Um absorto Jackson na Bad World Tour dele.


Em uma parte não pequena, por causa dessa influência elétrica, o trabalho do próprio Jackson foi caracterizado pela fusão: de diferentes eras, diferentes estilos, diferentes mídias e diferentes gêneros. Em razão disso, avaliar o trabalho dele é mais que desafiante, pois eles nunca isolaram expressões. Em Black or White, por exemplo, há elementos de rock clássico, R&B, rap e pop. Mas é também um curta-metragem que se desenha a partir de fontes tão díspares quanto a Cantando na Chuva, de Stanley Donen e Geny Kelly; e a Do The Right Thing, de Spike Lee. Além disso, é uma rotina de dança que aproxima inúmeros estilos, de sapateado a hip hop e dança moderna. Para cada peça, há “um longo primeiro plano” que faz o trabalho dele parecer simultaneamente familiar (porque é historicamente informado) e novo (porque é uma fusão de formas muito únicas e criativas).

Quando se avalia a música de Jackson, é particularmente importante levar em conta a representação visual dela. Mais que qualquer outro artista antes dele, nós “vemos” as músicas de Michael Jackson, através das interpretações dele e vídeos. É quase impossível escutar faixas como “Thriller”, “Bad”, “Smooth Crmiminal” e “Black or White” sem visualizar os figurinos de Jackson, coreografia e narrativas cinematográficas. Alguns puristas da música, tanto dos anos 80 quanto de hoje, têm lamentado essa tendência de fusão de meios, sentindo que isso polui a integridade da música. Antes de Jackson, é claro, muitos outros artistas, incluindo Elvis Presley e Beatles, apresentaram as músicas deles visualmente em filmes e na televisão. Durante a maior parte dos anos 70, porém, a forma artística conhecida com “music-video” foi, essencialmente, uma ignorada ferramenta de promoção, realizando produções pobres, pequenos orçamento e narrativas ruins.

Em 1983, contudo, Jackson reinventou completamente as possibilidades. Billie Jean e Beat It iniciaram a transformação, substituindo montagens promocionais baratas por produções elaboradas, completamente concebidas, que continham narrativas fortes, visual e efeitos espetaculares e, é claro, a característica coreografia e movimentos de dança de Jackson. Depois veio o inovador vídeo de quatorze minutos de “Thriller”, o qual custou mais de meio milhão de dólares para ser feito e se tornou o vídeo caseiro em VHS mais vendido de todos os tempos. Thriller é, agora, quase universalmente considerado o vídeo musical mais influente da história.

Tal inovação nos meios continuaria por toda a carreira de Jackson, fazendo dele a definição de artista visual da geração MTV. Desde a pioneira atração 4-D, Capitain EO, ao espetáculo gótico de quarenta minutos, Ghosts, Jackson esteve sempre à frente, expandindo as possibilidades dos meios, enquanto inflamava a imaginação dos espectadores. Na verdade, em retrospecto, como o crítico cultural Hampton Stevens notou, “A tradicional sabedoria convencional, repetida tantas vezes, de que os vídeos de Jackson fizeram a MTV e, daí, ‘mudaram a indústria da música’ é apenas metade da verdade. É mais como se a indústria da música tivesse infldo para abranger o talento de Jackson e se encolhido, de novo, sem ele. Os vídeos não importavam antes de Michael e eles deixaram de importar quase no momento cultural preciso em que ele parou de produzir grande obra.”




Man In The Music: Introdução VI "Cantando Além da Linguagem"



CANTANDO ALÉM DA LINGUAGEM
Embora este livro reconheça as contribuições da dança e dos filmes de Jackson, porém, ele enfatiza o trabalho dele como cantor e compositor. Talvez, em parte, porque as habilidades de Jackson nessas outras áreas, as habilidades notáveis dele como vocalista e compositor são, muitas vezes, esquecidas. Há, sem dúvidas, uma variedade de razões para essa negligência, uma delas é que a avaliação do trabalho de Jackson é muito diferente da de um cantor tradicional, como Bruce Sprinsteen e Bob Dylan. Com Dylan, as melodias estão quase sempre na frente e centradas em avaliações críticas; no entanto, para Jackson, elas podem ser, muitas vezes, auxiliares ou, pelo menos, uma das tantas mídias a considerar. Na verdade, mesmo nas vocalizações dele, parte do distintivo estilo de Jackson é a habilidade dele de transmitir emoção sem o uso da linguagem: há as características engasgadas, suspiros, grunhidos, gritos, choros e exclamações, ele, também, frequentemente, fala de forma tão rápida, torce e contorce a palavra, até que fique praticamente indecifrável. A ideia é fazer a audiência “sentir” a música com impressão dos sentidos, em vez de focar inteiramente nas palavras. Tal “impressão”, é claro, pode ser mais difícil de analisar.
                                                                
O método mais instintivo de Jackson foi algo que ele aprendeu assistindo os maiorais do funk, soul e rythm and blues. Mas ele desenvolveu um estilo que era inegavelmente dele próprio. Era uma voz que, brilhantemente, evocaria emoções extremas, injetando as letras mais comuns com profundidade e emoção. “(Michael)”, observou Quincy Jones, “tem algumas das mesmas qualidades dos grandes cantores de jazz, com os quais eu trabalhei: Ella, Sinatra, Sassy, Aretha, Ray Charles, Dinah. Cada um deles tem esta pureza, esta canção fortemente marcada e que abre a ferida, que os empurram para a grandeza. Cantam esmagando a dor deles, curando as mágoas deles, e dissolvendo os problemas deles. Música é a libertação deles da prisão emocional”.

De um ponto de vista técnico, o amplo alcance de Jackson permitiu que ele se movesse de forma fluída por, aproximadamente, quatro oitavas (isso foi algo em que ele trabalhou muito duramente para alcançar, quando adulto, embora ele raramente empurrasse o alcance dele para além dos limites). Um tenor natural, o canto dele no tom mais agudo era suave e sublime, mas ele também podia ser efetivo nas notas mais baixas, ocasionalmente, até caindo para um barítono. Todos que trabalharam com ele comentam sobre a afinação perfeita dele. O treinador de voz  de longa data dele, Seth Riggs, maravilhou-se tanto com as habilidades quanto com a dedicação dele. Jackson, afinal de contas, era uma dos mais talentosos cantores infantis de todos os tempos. As pessoas, muitas vezes, pensam que foi fácil a transição dele para um cantor adulto, mas foi preciso uma enorme quantidade de trabalho e desenvolvimento. Ele teve que encontrar novas formas de abordar os sons e novas formas de empregar o conjunto de habilidades dele.

O que Jackson pode ter perdido em elasticidade juvenil, ele fabricou em criatividade e versatilidade. Atráves de Off The Wall, apenas, pode-se viajar do êxtase falseteado de “Don’t Stop Till You Get Enough”, ao calor sutil de “Rock With You”,  à original percussão de “Workin’ Day And Night”, à improvisação de jazz de “I Can’t Help It”, ao vulnerável sussurro de  She’s Out of My Life”. Em álbuns subsequentes, ele disparou sobre majestosos hinos ao lado de coros gospel, emitiu corajosos scratch vocais em “Dirty Diana” e “Give Into To Me” e implementou raps falados e beatboxing em muitas das faixas ritmo. “Jackson era um dançarino no coração”, escreveu o critico musical Neil McCormick, “e as proezas vocais dele expressavam-se alegremente dentro e em volta do ritmo. Ele gostava de fazer várias faixas com a propria voz, de modo que ele desfiava a própria voz, perguntando e respondendo a si mesmo. Eu, muitas vezes, pensei que esta era uma daquelas vozes que se destacaria em qualquer contexto, o que você não pode dizer de muitos cantores pop, atingindo um espaço que está, emocionalmente, direto no fundo, mas é quase mais que humano, transcendendo todas as divisões, da mesma forma que, às vezes, um supercantor mundial pode, além da linguagem, em música pura”. Isso, na verdade, foi o que ele objetivou alcançar com o canto dele. Escute ao choro sem palavras de Jackson em “Earth Song” ou nos scatting dele na inacabada “In The Back”. Palavras não são necessárias, a emoção profunda é demonstrada perfeitamente na apresentação dele. A voz dele é música.




                                                 
Cantar, como Quincy Jones colocou, era a “libertação” de Jackson da “prisão emocional”.
     
                                      

































                          






Nota da tradutora:
Scatting: cantar apenas sons, sem palavras.