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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Lupus, Vitiligo, Plásticas e O Conceito de Auto-ódio


 

Lúpus, Vitiligo, Cirurgia Plástica e O Conceito de "auto-ódio". Será que Michael Jackson queria ficar branco?

 


Traduzido por Daniela Ferreira
Comentários em azul são da tradutora

 

Coincidências interessantes às vezes acontecem. Há uma semana, as acusações de que Michael Jackson se “autodesprezava por ser negro” impressionou-me tanto que decidi escrever algumas palavras sobre essa alegação – tocando sobre a saúde de Michael no caminho, e aqui estamos – certo Dr. Drew Pinsky, de repente, usa o programa de TV dele para divulgar as velhas mentiras sobre o nariz de Michael "caindo" e convida os chamados “amigos” de Michael Jackson (Brian Oxman e Deepak Chopra) para falar nada bem dele, exceto que ele era um “viciado”.

Surpreendentemente, mas o meu post também vai ser sobre a aparência de Michael e até mesmo alguns problemas relacionados com o vício e eu também citarei um ex-associado de Michael Jackson – Dr. Arnold Klein, que não é considerado amigo de Michael, de jeito nenhum, no entanto, é esse homem que vai nos garantir que o nariz de Michael estava muito no lugar e que Michael conseguiu se livar do vício em Demerol. Além disso, é este não-amigo que nos ajudará a entender como as drogas foram introduzidas na vida de Michael e quem é responsável por isso.

Nestes dias de batalha aberta para o bom nome de Michael Jackson é difícil dizer quem é amigo ou inimigo – algumas pessoas são definitivamente indecisas sobre de qual lado estão, e ficam indo e volatdndo. Hora de fazer sua escolha, rapazes – estamos quase lá e depois vai ser tarde demais.

Mas vamos começar de onde paramos a discussão sobre o alegado “autodesprezo por negros” de Michael. Um leitor levantou isso na seção de comentários e descobriu que algumas pessoas acreditavam nisso e aplicavam isso a Michael Jackson como a única explicação de por que ele se transformou de negro em branco e fez cirurgias plásticas no rosto.

 
FICANDO BRANCO 

Somente os surdos e cegos não sabem até agora que não era desejo de Michael de se tornar branco. A mudança na cor da pele dele foi devida ao Vitiligo, uma doença grave autoimune, que transformou a pele dele em porcelana branca e a vida dele em um pesadelo. Não poderia ser parada ou curada, foi um enorme obstáculo para o trabalho de Michael no palco e aparições públicas e, além de trazar grande sofrimento, foi considerado em todo o mundo como um sinal de que Michael querer trair a própria raça.

O site MJEOL perfeitamente redigiu: "Durante anos, Jackson viveu com uma acusação totalmente injusta, imerecida e sem fundamento, com base em algo contra que ele não podia fazer nada. Ele enfrentou todos os diabos e todas as piadas que foram feitas poderiam ter sido um enorme fardo sobre alguém que já estava totalmente auto-cosciente sobre a aparência dele”.

 


As filmagens de "They Don’t Care About Us" no Rio de Janeiro, em 1995. Maquiagen efetivamente cobrem a manchas escuras no vídeo real.


Eu creio que o vídeo pasa por edição e, assim, as manchas são escondidas.

Aqueles que ainda fazem piadas desagradáveis ​​sobre o desejo de Michael de “ficar branco” devem ser lembrados em uma base diária que esse tipo de comportamento por parte deles era mais ou menos tolerável, ​​quando as pessoas estavam no escuro sobre a doença de Michael. Repetir a mesma velha história, agora, depois que ele disse a Oprah e outros sobre o vitiligo e o diagnóstico foi confirmado por inúmeras fotos e até mesmo o relatório da autópsia é simplesmente monstruoso. Assim como é monstruoso rir das feridas dos outros.

Esse tipo de comportamento deve ser interrompido por uma mão de aço por todos que o vê, pois não se justifica de maneira nenhuma.

O dermatologista de Michael, Arnold Klein, disse em uma entrevista com Larry King, que o vitiligo de Michael foi muito ruim e a decisão final de “ficar branco” não foi de Michael.


KING: O que é vitiligo?

KLEIN: É uma perda de células de pigmento. E as células de pigmento, você – para cada 36 células normais em seu corpo, você tem uma célula de pigmento bombeando pigmento nelas. Infelizmente, é uma doença autoimune e o lúpus é uma doença autoimune. E elas tendem a ocorrer juntas, porque você produziz anticorpos contra as células de pigmento.

KING: Michael tinha isso?

KLEIN: Com certeza. Nós fizemos uma biopsia.

KING: O que provoca isso?

KLEIN: A causa disso é... É causada por seu sistema imunológico e seu sistema imunológico destrói as células de pigmento.

KING: As pessoas negras têm mais que os brancos?

KLEIN: Não. Mas é apenas mais visível em pessoas negras, porque eles têm uma pele escura. A outra coisa é que isso certamente ocorre com uma história familiar. E eu acredito que um dos parentes de Michael, de fato, tem vitiligo.

KING: Ele ficou muito mal?

KLEIN: Oh, ele ficou muito mal, porque ele começou a ter uma aparência totalmente salpicada sobre o corpo dele. E ele poderia...

KING: Sobre todo o corpo dele?

KLEIN: Em todo corpo, mas no rosto dele de forma mais significativa; nas mãos, que eram muito difíceis de tratar.

KING: Então, vamos deixar claro uma coisa. Ele não era alguém desejoso de ser branco?
KLEIN: Não. Michael era negro. Ele estava muito orgulhoso da herança negra dele. Ele mudou o mundo para os negros. Agora temos um presidente negro.
KING: Então, como você trata o vitiligo?
KLEIN: Bem, quero dizer que há certos tratamentos. Você tem uma escolha onde você pode usar determinadas drogas chamadas (inaudível) e tratamentos de luz ultravioleta para tentar fazer com que as manchas brancas fiquem escurar ou... Mas a dele se tornou tão grave, que a maneira mais fácil é usar cremes certos que farão as manchas escuras clarearem, assim você pode até mesmo retirar a pigmentação totalemte. 

Veja que Klein deixou claro que aopção por clarias o que restou da cor negra era a mais indicada para casos de vitiligo extenso como Michael tinha. Mas de qualquer forma, uma repigmentação com luz ultravioleta não seria posspivel. Michael tinha lupus eritomastose discoide e essa doença provoca feridas na pele quando exposta ao sol. Agora, o que é a luz ultravioleta senão a mesma radição que vem do sol? Um tratamento com UV mataria Michael, ou seja, era um beco sem saida.

KING: Então a sua decisão foi clareá-lo?

KLEIN: Bem, sim, isso é, em última análise, o que a decisão tinha que ser, porque havia vitiligo demais para lidar e...

KING: Caso contrário, ele teria parecido ridículo?

KLEIN: Bem, você não pode... Ele teria que usar maquiagem pesada, maquiagem pesada no palco, o que seria ridículo. E ele realmente não podia sair em público sem parecer terrivelemente diferente. 

Aqui está o vídeo deles conversando:


 A versão de Dr. Klein dos eventos são as mesmas palavras que a maquiadora de Michael, Karen Faye, usou para explicar por que Michael ficou branco, quase da noite para o dia (ou pelo menos alguns de nós tínhamos essa impressão). Karen Faye diz que primeiro tentou cobrir as manchas brancas com maquiagem escura, mas quando o vitiligo se tornou demasiadoextensa, eles tiveram que usar maquiagem clara, o que naturalmente provocou uma mudança quase imediata na aparência de Michael na cor oposta:


A mudança foi rapidamente notada pela mídia e foi atribuída a uma operação para “substituição de pele” a qual ele tinha, alegadamente, se sujeitado. Essa mentira foi tão eficaz que até mesmo em minha parte distante do mundo um grande número de pessoas inteligentes que acreditavam que a pele de Michael tinha sido substituída.

E isto apesar da ideia ser completamente ridícula, absurda e até mesmo delirante. Onde é que um homem negropega tanta pele branca? De um doador? Mas não há precedentes de uma substituição cirúrgica de pele em todo o corpo! A substituição máxima que eles fazem agora são remendos isolados de pele (quando ocorrer ferimentos, queimaduras) E como essas pessoas imaginam a substituição completa? Escalpelando-o compeltamente primeiro? E depois colando a pele de outra pessoa? Algumas pessoas devem ter assistido filmes de terror demais e não podem contar a vida como resultado de uma ficção!

A ideia é ridícula e até risível, mas só para comprovar a impossíbilidade disso, saiba que, quando uma pessoa é vpitima de queimadura grave e precisa de enchertos de pele, o corpo rejeita essa pele estranha. O que os médicos fazem é colocar pele retirada de cadáveres para proteger a vítima de queimadura, mas els sabem que é questão de tempo até que o corpo comece a se livrar da pele enchertada. Uma nova pele cresce – pele da própria pessoa – enquanto a enchertada é descartada pelo corpo. Isto é, se Michael tivesse trocado toda a pele (faça um esforço para imaginar algo tão absurdo), o corpo dele teria se livrado da pele estranha, e uma nova pele original (e negra) teria se formado.

Outros detratores acreditavam que Michael usou cremes para clarear a pele. Ele fez uso de alguns cremes branqueadores, como os médicos prescreviam, para fazer as manchas escuras parecer mais pálidas, mas esses cosméticos são um procedimento padrão para todos os pacientes com vitiligo, para poupá-los do constrangimento de enfrentar o público com uma aparencia de leopardo. E uma vez que o uso desses cremes é padrão, todas aquelas pistas sujas sobre “clareamento da pele dele” completamente perdem lugar. Não rimos de pessoas que usam creme dental para a higiene diária, rimos? Então por que todas as insinuações e risos sobre o “creme de clareamento encontrado na casa dele”? Por que não rir quando encontrar creme dental na casa de alguém, também?

Como todas as pessoas que sofrem de vitiligo, Michael ficava muito constrangido pela condição dele e confessou que tinha a doença apenas quando ele estava praticamente branco. Se ele tivesse dito isso antes a histeria sobre ele “querer ser branco”, provavelmente, poderia ter diminuído, mas sabendo que ninguém acreditava em Michael, mesmo depois da admissão dle, eu duvido que uma confissão antes tivesse feito muita diferença.

Em vez disso, poderiamos termos sido soterrados com fotos de Michael pintado, secretamente feitas por paparazzi, escndidos em alguns arbustos, e publicadas em todos os tabloides com manchetes escandalosas. Você pode imaginar as suculentas histórias que acompanhariam as fotos? Eu posso muito bem: “A aberração se tornando mais aberração que nunca”; "Um Terror Salpicado", “Você já está assustado?”.

Não; foi sábio ele não dizer nada até que ele se tornou de uma só cor, de novo.


O CONCEITO COMUM DE BELEZA

Mas a teoria do “autopreconceito racial” de Michael é baseada não só na mudança dramática da cor da pele. Muita conversa sobre esse assunto gira em torno da cirurgia plástica no rosto. Alguns têm certeza de que, dessa forma, Michael estava interessado em adquirir uma “aparencia branca” e que o desespero dele para “mudar a raça dele” era tão grande que ele supostamente fez mais de 50 operações. Após a entrevista de Bashir ir ao ar, a mídia escreveu:


“No início desta semana, um especial da ‘Dateline NBC’ examinou a negação do cantor, que ele fez apenas duas operações de cirurgia plástica. Um médico que compartilhava um escritório com o cirurgião plástico de Michael Jackson alegou que o cantor pop teve mais de 50.”

Qual médico? Nome, por favor! E quanto ele poderia ver se ele apenas dividiu o escritório?

Contudo, não vamos perder tempo com essas pessoas que tentam evitar de voltar para o inferno (que é de onde eles vieram), a questão que precisamos buscar é se Michael realmente odiava a si mesmo por ser negro e se ele realmente “traiu a raça dele” por ter feito cirurgias plásticas no rosto.

Em primeiro lugar deixe-me dizer que a ideia de “autopreconceito racial”, como tal, e em aplicação à cirurgia cosmética, em particular, parece para mim uma construção mental tendenciosa e alatamente artificial. Você pode sentir que algo está basicamente errado com essa afirmação, mas não determinar onde está o erro. Tudo o que posso dizer é que a ideia é muito primitiva para explicar coisas que são, na verdade, muito mais complexas.

Infelizmente, o fenômeno da “autoódio” existe, embora eu fosse preferir chamá-lo autoinsatisfação ou não-aceitação de si mesmo do jeito que é. Mas chamar isso de fenomeno unicamente negro seria um exagero ridículo, para dizer o mínimo.

A verdade da questão é que a maioria das pessoas é incapaz de aceitar-se plenamente.  Insatisfação com nós mesmos é uma característica típica para a maioria de nós e é apenas o grau dela que varia de pessoa para pessoa. Esse fenômeno não é apenas uma das maiores forças motrizes humanas (uma vez que incentiva mudanças e trabalhar em si mesmo), mas também é um dos maiores males da vida (pois traz neuroses).

Tomadas em um contexto mais amplo, a incapacidade de sse aceitar não inclui apenasa aparência. Algumas pessoas não aceitam o peso e fazem dieta. Alguns estão descontentes com as capacidades intelectuais e dosn que a natueza lhes deu – eles queriam algo melhor ou mais. Alguns sofrem de falta de confiança em si próprios ou incapacidade de socializar adequadamente e tornam-se totalmente neuróticos, como resultado. Alguns têm dificuldade em aceitar a sexualidade ou posição social e isso pode provocar excessos enormes. No entanto, há uma coisa que é comum a todos nós – praticamente todos nós estamos insatisfeitos como parecemos.

Eu não conheço uma pessoa na minha vida que esteja totalmente feliz com a aparência dela. Algo está sempre errado – nariz, orelhas, condição da pele, forma dos quadris, barriga, pernas ou a boca. Alguns têm o cabelo muito pouco ou não, alguns têm muito cabelo e não nos lugares certos, aqueles com cabelo encaracolado os desejam lisos, aqueles com cabelos lisos os querem encaracolados, e assim por diante; a lista pode continuar para sempre.

Insatisfação com a aparência é tão difundido que o conjunto da indústria da beleza é com base nesse conceito, assim, tornando-se tecnicamente possível chamar todos os usuários ávidos de produtos de beleza autoinimigos também. Essa seria uma afirmação absurda, claro, mas a popularidade de procedimentos cosméticos e maquiagens de todos os dias mostram que a autoinsatisfação e parcial não aceitação da própria aprência é uma coisa absolutamente rotineira, que mostra o desejo de cada um de nós para chegar a certo padrão – sim, o padrão ideal de beleza.

Eu não ficaria de repente falando sobre esse conceito, se não tivesse uma relação direta com Michael. Ele foi acusado por todos de um desejo de parecer mais atraente e a hipocrisia dessas acusações é simplesmente impressionante quando você olha para ele do ponto de vista de um grande número de nós que estão fortemente envolvidos em atividades semelhantes, nós mesmos.

Se alguns de nós não recorremos a procedimentos cosméticos, isso significa que ou são pessoas muito sábias que aprenderam a aceitar a si mesmas do jeito que são ou simplesmente é falta de meios para desfrutar de todas as coisas boas que a indústria da beleza pode nos oferecer. Considerando o último fator, eu suspeito fortemente que se tivéssemos o dinheiro não seriamos capazes de resistir a algumas das tentações cosméticas e também encontrar o que fazer para nossos rostos ou figuras (e com a idade também). 

Como você legitimamente, aconteceu que o ideal de beleza foi de alguma forma forçado no mundo pela raça branca, embora tenha começado a mudar sensivelmente nas últimas décadas. Mas mesmo apesar das novas tendências, a mente humana ainda é fortemente dominada pelos ideais que foram evoluindo ao longo dos séculos e que são implantados em nossas mentes sem nos darmos conta.

Como resultado disso, ou, provavelmente, porque o conceito de beleza é algo embutido em uma mente humana (?), eu arriscaria a dizer que há certa imagem mental de beleza que existe em forma abstrata para todas as pessoas do mundo independentemente da raça e cor da pele dela. Esse ideal de beleza inclui uma combinação de vários elementos obrigatórios – o mínimo de que são uma pele limpa e saudável, nariz reto e bem proporcionado, os olhos que são de preferência maiores, orelhas que não se destacam, lábios não muito finos, cabelo bom, etc.

E é engraçado, mas consideramos cabelo bom o cabelo liso, e o cabelo crespo é chamado ruim. Daí concui-se que o ideal de beleza são os traços da raça branca. 
 


Madonna Negra
A cor da pele não é tão importante porque é um fator menor, em comparação com as características faciais – se todos elementos acima estão presentes, o rosto permanece dentro de um certo padrão comum de beleza e a cor da pele é apenas um tempero que pouco acrescenta para o quadro inteiro. Olhe para os rostos bonitos de refugiados da fome no Chifre da África, que estão atualmente em telas de TV de todo mundo e você vai entender o que quero dizer – muitos dos rostos são tão belamente modelados que, se não fosse a tragédia, muitas destas mulheres magras poderiam se tornar modelos. Os rostos delas ajudam a perceber que não é a cor da pele que faz com que uma pessoa seja bonita, mas os traços do rosto e as proporções.
O ponto que eu estou tentando fazer aqui é que a beleza não está na cor – a beleza está nas proporções do nosso rosto, o complexo que é registrado por nosso cérebro em algum nível muito básico reconhecido por todos.
Esse padrão universal de beleza tem levado muito tempo para formar e vai novamente levar algum tempo e alguns mecanismos psicológicos desconhecidos para fazer o nosso cérebro perceber a beleza de forma diferente. Não está em nosso poder mudar a percepção pública da massa do que é bonito e o que não é – especialmente desde que a mídia está fazendo o melhor que pode para que todos nós desejemos paracer o que eles consideram bonito no momento. No século seguinte, o conceito de beleza vai mudar e todos vão novamente tentar parecer de tal maneira – e isso é algo que simplesmente não pode ser evitado por qualquer um de nós.
O tema pode parecer ianda mais pertinente se você tiver em emnte que Michael via o próprio rosto como uma obra de arte, uma tela na qual ele esculpia, não necessariamente um padrão de beleza de acordo com um senso comum, mas o que ele julgava belo. Isso é uma longa discussão, que foi abordada em diversos artigos de Joie e Willa (do Dancing With the Elephants) e outras autoras como Susan Fast. Bem como o livro M. Poetica de Willa Stilwater
 
 Continua...
 
 

sábado, 5 de janeiro de 2013

Releitura de Michael Jackson - Parte 4



"Então, Que A Performance Comece"

 



Quanto mais eu estudo Jackson e o trabalho dele, mais me convenço de que ele era um homem de muita coragem e perspicácia psicológica profunda; ferozmente comprometido com a mudança social, ironicamente engraçado mesmo durante os momentos mais difíceis, e um artista até o âmago do seu ser. Ele viu tudo em termos de arte e do poder transformador da arte. Nós não temos acesso direto ao mundo – só podemos acessar o mundo através dos nossos sentidos e percepções e arte tem a capacidade de desafiar e mudar essas percepções. Isso é um tremendo poder, e Jackson entendia isso melhor que qualquer outro artista do tempo dele. 

Por exemplo, quando os sintomas do vitiligo de Jackson se tornaram progressivamente pior, ele poderia ter reagido cobrindo as manchas brancas com maquiagem escura o resto da vida dele, como a maquiador dele, Karen Faye, diz que fez nos primeiros anos da doença. Ou ele poderia ter divulgado tudo, usando maquiagem mínima, e se tornado um porta-voz para a conscientização e tratamento do vitiligo. Em vez disso, ele desenvolveu uma resposta artística que desafia nossas crenças mais fundamentais sobre raça e identidade, e mudou a nós e a nossa cultura de uma forma que ainda não começamos a medir. 

Da mesma forma, Jackson poderia ter respondido à percepção pública de que ele era um abusador de criança tentando ignorá-la ou superá-la de alguma maneira, embora seja difícil ver como ele poderia ignorar um assunto tão em desacordo com as crenças centrais dele. Ou ele poderia ter se aposentado da vista do público inteiramente e tido uma vida privada confortável com a nova família dele, algo que ele nunca tinha tido antes.  

Em vez disso, ele desenvolveu uma resposta artística que abala os alicerces da própria percepção, e desafia algumas de nossas suposições mais básicas sobre como podemos ver, interpretar e dar sentido ao mundo. 

Esse é o trabalho de um artista poderoso.

 


 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Releitura de Michael Jackson - Parte 3


"Vou ser exatamente o que você quer ver"



Uma das coisas que nós pensamos que sabemos sobre Jackson depois de 1993 é que ele teve cirurgia plástica extensa – que ele era, de fato, obcecado com cirurgia plástica. No entanto, esses julgamentos são baseados em fotografias, e quando montam essas fotos para comparação, os tabloides sempre escolhem as mais divergentes, as mais discrepantes: em outras palavras, as que mais vivamente sustentem a conclusão do que eles estão tentando provar. Mas e se fizermos o contrário? O se evitássemos os extremos e comparássemos as fotos que parecem mais iguais? Abaixo está uma série de cinco fotos que abrangem 34 anos de vida de Jackson, a partir da adolescência dele até os 40 anos, e exceto pelas mudanças no nariz e na fissura no queixo que Jackson reconhece na autobiografia, Moonwalk, em 1987, não vejo sinais de cirurgia plástica.




Eu sei muito pouco sobre cirurgia plástica, mas olhando para essas fotos e mais como elas, eu só vejo a progressão natural de um rosto em amadurecimento. A testa, olhos, bochechas, lábios, e linha da mandíbula dele, todos parecem praticamente o mesmo para mim. Na verdade, na minha mente, a foto de 1987 é mais parecida com a foto de 2002, tirada 15 anos depois, do que a foto de 1984, tirada apenas três anos antes, enquanto o rosto dele ainda estava amadurecendo – uma semelhança que contradiz completamente a noção de que Jackson radicalmente mudou o formato do rosto dele depois de 1993.

A mãe de Jackson confirma isso, dizendo a Oprah Winfrey em uma entrevista em novembro 2010 que Jackson teve várias cirurgias no nariz, mas não no rosto inteiro dele, conforme amplamente divulgado e geralmente se acredita. Winfrey pergunta a ela: "Como ele continuou a ter outras operações e mudar a forma como ele parecia, você sente como se você pudesse dizer algo para ele sobre isso?" Sra. Jackson responde dizendo: "Ele teve outras operações no nariz, mas qualquer outra coisa, ele não o fez, exceto o vitiligo dele". Aparentemente, a mãe só vê a progressão natural de um rosto em maturação, bem como, e gostaria de considerar o especialista final sobre o assunto.

Então, por que foi tão comumente aceito que Jackson teve cirurgia plástica extensa? Eu acho que em parte é porque ele desafiou noções aceitas de raça e identidade, alterando a cor da pele e o formato do nariz dele, para que ambos, os meios de comunicação e o público, tornassem-se obcecados com o rosto dele. Os tabloides, especialmente, estavam constantemente a fotografar e analisar o rosto dele, em busca de alterações adicionais. Ele também tinha uma linha da mandíbula muito angular e maçãs do rosto proeminentes que podem parecer muito diferentes, dependendo do ângulo da câmera, iluminação, e a expressão no rosto dele, proporcionando aos tabloides uma abundância de material para especulação.

No entanto, a fotografia ocasional estranha por si só não poderia ter causado a histeria da mídia, que veio a cara envolvente Jackson. Havia mais coisas do que isso, e a explicação está na natureza da própria percepção, e como nossas crenças moldam nossas percepções: vemos o que esperamos ver. Uma vez que os meios de comunicação e o público se convenceram de que Jackson havia tido inúmeras cirurgias plásticas – que ele era, de fato, viciado em cirurgia plástica – eles começaram a interpretar a evidência fotográfica de forma que apoiassem as ideias preconcebidas.

Por exemplo, aqui está uma série de seis imagens que enfatizam as maçãs do rosto proeminentes de Jackson e a linha da mandíbula quadrada:




E aqui está outra série de seis imagens tiradas em um ângulo que faz o rosto dele parecer mais fino, com as bochechas menos angulares, e a linha da mandíbula mais longa e estreita:





Essas seis imagens parecem muito diferente do primeiro conjunto de seis, mas elas cobrem sobreposições de períodos de tempo. Se organizadas cronologicamente, seriam intercaladas, assim:





A conclusão óbvia a tirar dessa compilação de todas as 12 fotos é que as linhas aparentes e a forma do rosto de Jackson variavam muito, dependendo de fatores como a direção que ele estava de frente, a expressão dele, o peso dele, e o tipo e direção da iluminação.

No entanto, essa não foi a explicação que foi apresentada nos tabloides, e não era o que o público passou a aceitar como verdade. A narrativa a dominar os tabloides e, eventualmente, a grande mídia e a opinião pública, bem como, foi que Michael Jackson nasceu com um queixo pontudo bonito, bochechas de esquilo arredondadas, e uma linha do maxilar estreita, e, em seguida, mudou completamente o rosto dele através de obsessiva cirurgia plástica, tornando o queixo mais amplo e masculino e as maçãs do rosto mais nítidas e mais proeminentes. E porque é o que nossas mentes vieram a acreditar, isso é o que nossos olhos começaram a ver. Essa progressão, como imaginávamos, parece algo como isto:




Com efeito, colocamos em destaque e priorizamos as imagens que se encaixam na narrativa que acreditávamos, e mentalmente editamos as que não encaixam. E cada vez que vemos uma foto, avaliamos em termos da linha de história pré-existente. Se encaixar na narrativa e de alguma forma sugerir alterações adicionais para tornar o rosto mais masculino, foi aceito como mais uma prova de cirurgia plástica e foi adicionado à série de fotos "Changing Faces", que surgiram como cogumelos por toda a web. Se não encaixava, era largamente ignorada.

Apenas por diversão, poderíamos criar uma série de fotos que "prova" exatamente o oposto: que Jackson nasceu com uma mandíbula quadrada e maçãs do rosto proeminentes e, de alguma forma, elas foram raspadas ao longo dos anos, para parecer mais feminino, assim:




Essa narrativa é tão plausível dada a mesma evidência fotográfica, no entanto, nunca foi uma vez apresentada na mídia. Em vez disso, a linha da história dominante se espalha dos tabloides para os principais meios de comunicação, sem questão séria ou análise, e, pelo tempo que os obituários dele foram escritos, era geralmente aceito como fato.
Com base em uma revisão do registro fotográfico completo, nenhuma dessas narrativas é verdade. Parece que, exceto para alterar a forma do nariz, Jackson teve muito pouca cirurgia plástica – assim como ele disse durante toda a vida adulta dele a mãe dele confirmou após a morte dele. No entanto, a alegação dele de que ele não havia mudado radicalmente o rosto através de cirurgia plástica era geralmente tratada pela imprensa e público como delirante, na melhor hipótese, e uma mentira deslavada, na pior.

Mas como a narrativa que Jackson estava obsessivamente alterando o rosto através de cirurgia plástica chegou a ser tão dominante? Eu acho que em parte é porque os tabloides e, até certo ponto, a grande mídia tendem para o sensacionalismo, e essa história foi certamente sensacional: ela atende suas as inclinações naturais deles. Mas eu também acho que o próprio Jackson ajudou a perpetuar essa narrativa, como ele basicamente disse que iria em "Is It Scary".

Por exemplo, uma história bizarra começou a circular em 1995, de que a ponta do nariz de Jackson tinha caído durante um ensaio de dança para o seu vídeo Scream. Aqui está uma descrição da revista Rolling Stone:

 “Jackson estava ensaiando passos de dança quando a mão dele roçou o nariz fortemente alterado. A ponta – na verdade, uma prótese – e voou pela sala, e Jackson começou a gritar histericamente. Os membros da equipe correram atrás dele. ‘Havia um buraco, homem, um pequeno buraco, exatamente onde a ponta do nariz deve estar, uma abertura perfeitamente circular’, diz uma fonte que estava na sala naquele dia.”

Essa história me parece profundamente suspeita. Eu posso apenas imaginar a cena: Jackson “gritando histericamente” membros da tripulação lutando em busca no “nariz” dele, em pânico, outros que estavam assistindo com horror. Parece loucura total, e em perfeita sintonia com o senso de humor pastelão de Jackson. (Ele amava os Três Patetas, assim como Charlie Chaplin). Ele também era um brincalhão ávido e realizado e muito habilidoso com disfarces. Ele gostaria de tirar uma brincadeira espetacular como essa. Como ele disse ao rabino Shmuley Boteach: “Você está brincando? Essa é a minha coisa mais favorita em todo o mundo, pregar peças nas pessoas”. Ainda mais importante, ele tinha acabado de nos dizer no ano anterior que ele seria “grotesco diante de seus olhos”. Ele parece estar prevendo precisamente este tipo de incidente. Então, é possível que Jackson tenha intencionalmente configurado esta cena bastante “grotesca” para fazer parecer que a ponta do nariz dele tinha caído? Eu, de minha parte, suspeito muito.

Jackson dá uma dica interessante de que as coisas não são o que parecem em Ghosts, filmado no ano seguinte. Em um ponto, ele se transforma em um monstro a quem parece estar faltando a ponta do nariz, mas ele não é. Isso está lá e visível o tempo todo, nós só não o interpretamos dessa maneira. Jackson revela como essa ilusão inteligente, mas relativamente simples, funciona, mostrando o processo de maquiagem, quando os créditos estão em execução. Aqui está uma captura de tela:
 

 


Nós vemos que enquanto a base do nariz é coberta com camadas de próteses, a ponta do seu nariz dele não é. Um cume é criado onde as próteses acabam por sugerir que o nariz do monstro apodreceu, mas o nariz real de Jackson está lá e visível. É apenas fora de escala com as próteses em volta, de modo que parece estar faltando, ou é apenas o núcleo do que deveria estar lá.
É uma ilusão incomum, e uma escolha interessante para descrever o rosto desse personagem, considerando as percepções comuns sobre nariz o de Jackson. É ainda mais interessante que Jackson escolheu nos levar para os bastidores e nos mostrar exatamente como ele foi criado. Ele usou uma técnica semelhante para fazer uma brincadeira "grotesca" durante aquele ensaio de dança para o vídeo Scream no ano passado? Será que ele está nos dando uma pista sobre o que realmente aconteceu, e como ele fez isso?

Jackson fornece outra pista no encarte do álbum HIStory, que apresenta "Scream" como a canção líder. Em uma imagem estranhamente bela, Jackson aparece como uma esfinge – curiosamente, uma esfinge que ainda tem que perder o nariz dela / dela.






Através de pistas como essas, Jackson sugere que ele tinha muito mais controle sobrea imagem "grotesca" dele que nós, o público, imaginávamos – que o escândalo cirurgia plástica, em particular, foi uma ilusão perpetuada pelo próprio Jackson. 

A questão importante é por que ele fez isso. Como Jackson nos diz explicitamente em “Is It Scary”, ele tornou-se intencionalmente “grotesco diante de seus olhos” como uma resposta à percepção do público de que ele era um abusador de criança, um “estranho no meio da noite”. Foi uma resposta artística que serviu várias funções diferentes, algumas das quais são bastante complicadas, mas uma função era mostrar à imprensa e ao público apenas o quanto estavam errados, o quão eram erradas as percepções deles quando o acusaram de molestar uma criança. Durante o tempo em que “Is It Scary” foi escrita, Jackson estava passando por um “Armageddon do cérebro”, como ele chama em Stranger in Moscow. Ele estava sendo julgado pela mídia e pelo público, e cada vez que o veredito foi de que ele era um abusador de criança, isso era intolerável para ele. Fez dele, o trabalho dele a vida inteira dele uma mentira. Mas nada do que ele disse ou realizou fez qualquer diferença. 

Uma vez que os meios de comunicação e o público começaram a pensar em Jackson era um pedófilo, começaram a se concentrar na evidência que apoiava essa conclusão e ignoravam as provas da inocência dele. Assim, enquanto os comentaristas que cobrem o escândalo 1993 geralmente admitam que não houvesse provas suficientes para condenar Jackson, infinitamente repetem as provas circunstanciais contra ele, muito do que são boatos e insinuações, e em grande parte ignora a evidência de que deveria tê-lo inocentado, ou, pelo menos, levantou sérias questões sobre o caso contra ele. Por exemplo, quase ninguém reconheceu que as alegações do menino foram primeiramente realizadas em um consultório dentário enquanto ele estava sedado ou imediatamente após a sedação – e, de qualquer forma, quem sabe o que o pai pode ter dito a ele enquanto ele estava sedado, e que efeito isso pode ter tido sobre as memórias do menino. No entanto, esse é um fato incontestável e crucialmente importante, neste caso, uma vez que lança dúvidas significativas sobre o testemunho do menino, e o testemunho dele é a única evidência real contra Jackson. Tudo o resto é circunstancial. 

No entanto, a cobertura do escândalo, e a reação do público que se seguiu, não foram impulsionadas por uma revisão cuidadosa das provas. Em vez disso, Jackson estava sendo julgado e condenado nos tabloides e meios de comunicação de entretenimento, especialmente, e na mente do público, com base na emoção crua beirando à histeria, e “testemunhos de peritos” com forte tendência sensacionalista com muito pouco conhecimento deste caso particular, "informantes" dispostos a exagerar ou até mesmo mentir por lucro, e o resultado foi desinformação e equívocos. 

Assim, Jackson embarcou em uma experiência para mostrar o quão errada a percepção pública poderia ser. Foi, com efeito, um ato extremo de performance, mas como ele disse a Kobe Bryant: “está tudo bem ser o que guia; está tudo bem ser obcecado com o que você quer fazer”. Neste caso, “está tudo bem” empurrar a definição de arte a um extremo tal que prova algo tão crucialmente importante. 

No entanto, Jackson poderia ter escolhido uma ilusão diferente para provar o ponto dele. Ele não tem que se tornar “grotesco diante de seus olhos”. Ele escolheu essa ilusão particular, por uma razão.
 
Em muitos aspectos, o projeto mais duradouro de Jackson foi desafiar e alterar nossas respostas a ele próprio como um ícone cultural, como um homem negro americano, e simplesmente como um ser humano. Ao longo da carreira, ele lutou com um público que, por vezes, o idolatrou e, por vezes, ridicularizou-o, mas de qualquer forma parecia perversamente indisposto a vê-lo como uma pessoa. 

Como ele canta em “Breaking News” sobre os rumores persistentes de que o casamento dele com Lisa Marie Presley foi uma farsa: “Por que é estranho que eu tenha me apaixonado? / Quem é esse bicho-papão que você está pensando?”. Em“Monster”, as paródias representações exageradas dele pela mídia. (“Ele é um monstro / Ele é um animal”), mas depois vira essa perspectiva, sugerindo que os meios de comunicação são os verdadeiros monstros, (“Por que você me persegue? / Por que você está me perseguindo?”) e conclui com um aviso de que esses excessos da mídia nos prejudicam, assim como a ele, ("Ele está arrastando para baixo como um monstro / Ele está embaixo como um monstro”). Lutando com a nossa incapacidade de vê-lo como um pensamento, sentindo o ser humano tornar-se um foco ao longo da carreira de arte de Jackson. E ao longo da carreira, podemos vê-lo responder a esse problema de uma forma muito interessante: capturando as emoções que o público está projetando nele e as refletindo de volta para nós, enquanto, fundamentalmente, reformula e altera a nossa reação.

Jackson apareceu pela primeira vez no cenário mundial como um menino negro extremamente talentoso crescendo em um país profundamente racista. E se as multidões que se amontoaram para vê-lo estão tratando-o com um fascínio temeroso, como uma espécie de animal de estimação exótico – "como um animal em uma gaiola", como ele disse a mãe dele –, então ele nos dá um animal de estimação exótico: um rato, uma bom constritor, um filhote de tigre, um chimpanzé. Mas então ele nos encoraja a simpatizar com esses animais. Em “Ben”,o primeiro hit dele no topo das paradas como artista solo, lançado em 1972, ele nos leva para dentro da mente de um rato que é, ele próprio, vítima de preconceito irracional, cantando: “a maioria das pessoas expulsaria você” e “Você sente que não é querido em lugar algum”. E em entrevista após entrevista, Jackson encorajou os repórteres a interagir com a jiboia ou o chimpanzé dele e vê-los de uma forma menos amedrontada. 

Em 1983 Jackson tinha amadurecido em um homem muito jovem e sexy, e ao longo da história do nosso país, a imagem do homem negro sexual foi vista como extremamente ameaçadora – tão ameaçadora que os homens negros no passado não tão distante foram linchados por causa disso. Tabus culturais exigiram que as raças fossem mantidas distintas sem borrar as fronteiras entre elas, razão pela qual, relações inter-raciais despertaram hostilidade tão profunda por tanto tempo, e é importante lembrar que as leis anti-miscigenação não foram declaradas inconstitucionais até 1967. Alguns dos mais brilhantes e mais confiantes jovens negros foram torturados e mortos por causa do medo de que as mulheres brancas pudessem vê-los como desejáveis. (Apesar de que não seja o que foi dito, é claro – dizia-se que não eram distintos o suficiente para mulheres brancas –, mas a mensagem é a mesma de qualquer forma: Homens negros não devem associar-se com mulheres brancas. 

Agora, não tão muitos anos mais tarde, muitas jovens mulheres brancas estavam vendo Michael Jackson como muito desejável. Ele era um ídolo teen, nosso primeiro ídolo teen negro. Esse era um território desconhecido, e mais que uma pequena ameaça. Jackie Robinson integrava Baseball, mas Michael Jackson integrava sexo, e isso é o mais profundo, sombrio e sagrado de todos os tabus. 

A resposta de Jackson foi brilhante: ele nos deu Thriller. Em outras palavras, se a América branca era culturalmente condicionada a ver um jovem negro sexy como monstruoso de alguma forma – como ameaçador ou estranho ou qualquer coisa menos do que totalmente humano –, então, ele nos dá um monstro: um lobisomem, um zumbi. Então, novamente, Jackson capta as nossas emoções conflitantes sobre ele e as reflete de volta para nós. Mas ao longo de Thriller ele se transforma, para trás e para a frente, torna-se familiar e volta a ser o estranho. Jackson transforma sete vezes ao longo de Thriller: menino doce, menino lobisomem, zumbi, menino doce, zumbi de novo, menino doce, uma emergente criatura desconhecida. Cada vez que ele se transforma em um monstro, nós – como uma cultura, mas brancas meninas adolescentes, especialmente – somos capazes de expressar alguns dos sentimentos conflitantes que estamos reprimindo sobre ele, sobre ter visto um jovem negro como sexualmente desejável ​​e sexualmente um tabu, como fisicamente atraente e fisicamente ameaçador, tão exótica e fascinante e assustador. E cada vez que ele se transforma de volta, estamos seguros de que ele ainda é mesmo Michael Jackson de face delicada que amei desde que era um menino. 

Uma década depois de Thriller, em 1993, Jackson foi acusado de abusar sexualmente de um menino. E se nós ouvimos as acusações de pedofilia e sentimos um secreto tremor ao vê-lo, então, ele faz este ódio se materializar no rosto dele. É por isso que nós, como pessoas, ficamos tão hipnotizados pela imagem do rosto "devastado" dele, e por isso que isso ressoa dentro de nós tão profundamente. Como "Ben", e Thriller antes disso, isso precisamente se alinha com as emoções submersas que já estamos sentindo com ele, dá-nos a paisagem simbólica que precisamos para expressar plenamente essas emoções, e, depois, reflete-as de volta para nós, tornando-as visíveis. 

Mas é apenas uma ilusão. Ele não mudou realmente. São apenas nossas percepções e interpretações dele e o que nós projetamos para ele que mudou, não ele. Ele ainda é o mesmo que era antes das alegações – como ele canta em Stranger in Moscow "Senhor, eu sou o mesmo" – e ele ainda é bonito, se tivermos os olhos para ver isso. (É interessante que essa ilusão parece ter replicado como alguns indivíduos específicos sentiam por ele. Aqueles de nós que achava que ele era inocente tendem a ver o rosto dele tão vagamente diferente de alguma forma, mas não desfigurado. Aqueles que pensavam que ele era culpado tendiam a ver o rosto dele como "devastado". E alguns indivíduos excitáveis ​​viam o rosto dele tão verdadeiramente hediondo, aparentemente.) Assim como em "Ben" e Thriller, ele nos oferece a paisagem simbólica que precisamos para expressar plenamente todas as nossas emoções conflitantes sobre ele, e depois, nos obriga a enfrentar esses sentimentos e começar a trabalhar com eles. 

Jackson repetidamente desafia nossas mais profundas emoções mais reprimidas, sobre ele, e ele faz isso nos falando diretamente na linguagem do subconsciente. Se a América branca, na década de 80, tivesse sido, de alguma forma, um dos pacientes de Freud, e disse-lhe que o menino negro bonito ao lado tinha crescido em um jovem muito atraente e nós estávamos tendo sonhos que ele se tornou um lobisomem à noite, Freud saberia interpretar isso imediatamente. E se disséssemos a Freud, 10 anos depois, que o menino da porta ao lado tinha sido acusado de abusar sexualmente de um menino, e estávamos tendo sonhos de que ele estava tão horrorizado com as acusações de que ele cortou o nariz dele, Freud teria sabido como interpretar isso também. 

Embora a ideia de Jackson simbolicamente cortando o nariz dele possa não fazer muito sentido no nível consciente, faz todo o sentido no nível subconsciente –, talvez seja por isso que tantas pessoas estavam prontas a acreditar em tal história inacreditável – e nós respondemos de complexas formas emocionalmente e psicologicamente, mesmo que não entendamos conscientemente. Na verdade, histórias como a amizade de Jackson com um rato ou se tornar um lobisomem ou cortando o nariz pode funcionar melhor quando não as entendemos – quando simplesmente nos rendemos a elas e totalmente as experimentamos, e não analisamos ou resistimos a elas ou tentamos controlar nossas próprias reações.

Eu penso sobre “esquisitices excêntricas” de Michael Jackson como ele as chama em “Is It Scary” e como nós recuamos delas de forma tão violenta, e eu me pergunto o que isso nos diz, e não sobre ele, mas sobre nós. Assim como nossas reações à mudança da cor da pele dele revelam nossos sentimentos submersos sobre raça, talvez nossas reações às "esquisitices excêntricas" revelem como tendemos a responder à diferença mais geralmente. E, talvez, como Jackson nos mostra em Ghosts, a arte tem o poder de mudar a nossa forma de perceber e responder às diferenças que nos dividem.