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quinta-feira, 10 de maio de 2012

Porque Suas Palvras Apenas Não São O Bastante

Porque Suas Palavras Apenas Não São O Bastante


Willa: Então Joie, nós conversamos um pouco sobre Michael Jackson como compositor - por exemplo, em mensagens com Joe Vogel e Charles Thomson e Lisha McDuff. Mas essas conversas têm focado principalmente na música e nas habilidades dele como compositor.
Mas essas conversas têm focado principalmente na sua música e suas habilidades como compositor. Nós não temos conversado muito sobre Michael Jackson como letrista, e uma coisa que eu amo sobre as composições de Michael Jackson é a capacidade dele em nos mergulhar em um irresistível momentodramático com apenas algumas pinceladas simples. Um exemplo famoso é o refrão de "Billie Jean":
Billie Jean is not my lover
She’s just a girl who says I am the one
But the kid is not my son
Billie Jean não é minha amante
Ela é apenas uma garota que diz que sou eu
Mas o garoto não é meu filho

Em apenas três linhas, ele esboça uma narrativa surpreendentemente rica: personagens, tensão dramática e detalhes da trama, e a sugestão de um tema recorrente ao longo da obra dele sobre a intersecção de poder e desejo. É apenas elegante para mim como isso transmite tanto, de forma simples.

Joie: Concordo com você, Willa. Ele tinha a notável capacidade de pintar a imagem mais vívida, com apenas algumas palavras. Eu gosto desse exemplo de "Smooth Criminal":
As he came in through the window
Was the sound of a crescendo
He came into her apartment
Left the blood stains on the carpet
Quando ele veio à janela
Era o som de um clímax
Ele entrou no apartamento dela
Deixou manchas de sague no carpete

Com apenas as duas primeiras linhas você sabe imediatamente que algo não está certo. Um homem quebrou a janela de alguém e entrou por ela. Então, com as seguintes duas linhas, você sabe que ele está no apartamento de uma mulher indefesa e você teme pela segurança dela.
Ele montou uma história toda em apenas quatro pinceladas curtas, como você disse. Acho essa habilidade para pintar um quadro tão vívido, com apenas algumas palavras realmente incrível. É um talento que nem todo mundo tem.
Willa: Oh, "Smooth Criminal" é um grande exemplo! Há tanta coisa acontecendo nessa canção – eo vídeo que o contém, e do filme que contém ambos –, mas está tudo incorporado com tanta habilidade que soa como uma canção simples e pequena. Mas essa aparente simplicidade é enganadora. Esta é realmente uma das bras mais complicadas dele, tanto em complexidade emocional quanto em estrutura narrativa.
Por exemplo, existem quatro diferentes "vozes" trançadas para formar a narrativa. Michael Jackson canta todas as quatro, mas cada uma representa um diferente ponto de vista – e ele canta cada uma delas de maneira muito diferente ao transmitir isso.
A "voz" principal é o narrador quem está nos contando a história. Ele é o único que canta os primeiros versos dramáticos que você citou acima. Então há uma espécie de coro grego reagindo a essa narrativa, com Michael Jackson sendo simplesmente uma das muitas vozes. Eless são os únicos que cantam as linhas repetidas de "Annie, você está bem? / Você vai nos dizer que você está bem ?"
Em seguida, mais duas vozes aparecem após o intervalo. Há o Smooth Criminal ele mesmo, e Michael Jackson canta as linhas dele com essa voz realmente rouca ( "Já era, mue bem! " ). E depois há este outro personagem canatndo: "Eu não sei! / Eu não sei! / Eu não sei por quê " . Nós realmente não sabemos quem é, mas Michael Jackson canta essas linhas com uma voz alta, bela e trêmula – é realmente assustador.
E enquanto não sabemos ao certo quem é esse personagem, eu sempre senti que era o espírito de Annie, cantando de além-túmulo.
Joie: Essa é uma observação muito interessante, Willa. Eu nunca olhei para "Smooth Criminal" dessa maneira até que você tocou no assunto. É uma ideia fascinante.
Willa: Bem, não está claro a quem essa voz misteriosa pertence, e eu acho que a ambiguidade é intencional, então eu estou relutante em dizer, sim, é definitivamente Annie. Mas isso é como se parece para mim, e isso pode ser uma razão pela qual eu gosto tanto da versão de Glee de "Smooth Criminal", porque torna explícito algo que, para mim, já está implícita há na original.
Eu sempre senti que, quando Michael Jackson canta "Eu não sei por quê!" Ele está cantando como uma personagem feminina, e que a seção inteira parece uma colagem de vozes masculinas e femininas justapostas umas contra as outras. Então, quando ouvi a versão de Glee com as vozes masculinas e femininas em dueto, isso pareceu bem certo para mim.
Joie: Você sabe, eu li recentemente um artigo online intitulado "Por Que Prince Ainda É Importante", e no parágrafo de abertura o autor faz a afirmação de que, enquanto Michael Jackson foi o único intérprete "que poderia competir e até mesmo ofuscar o Prince como um cantor, bailarino e performer carismático", ele simplesmente nunca poderia competir com Prince como um compositor.
Eu li isso e fiquei instantaneamente frustrada – como de costume. É um argumento que ouvimos repetidamente dos críticos, e é algo que nós abordamos durante a nossa conversa com Joe e Charles sobre MJ como compositor, mas é um argumento com o qualeu discordo completamente e simplesmente não entendo.
Willa: Eu realmente não entendo isso também, mas talvez tenha algo a ver com a forma de definir a linguagem poética. Você sabe, na sua maior parte, queremos que a linguagem da prosa seja invisível – nós queremos transmitir uma ideia sem as palavras entrando no caminho.
 Mas a linguagem poética é diferente – é a linguagem que chama a atenção para si. Quando ouvimos a linguagem poética, não nos limitamos a pensar sobre as ideias e emoções, mas nas palavras usadas para transportá-las. E na maioria das vezes, as palavras de Michael Jackson não chamam a atenção para si.
Mas se olharmos atentamente para as letras dele, descobrimos que ele é muito hábil em na escolha de palavras e tem uma consciência poética das palavras. Por exemplo, ele gosta de se envolver em jogos de palavras, que pode ser uma característica importante da poesia, mas o jogo de palavras dele, muitas vezes, transmite um significado temático também. Um bom exemplo é "Beat It". Eu amo o jeito que ele redefine as palavras do título ao longo da canção. No primeiro verso, "Beat It!" Significa correr, ou fugir de medo:
They told him don’t you ever come around here
Don’t wanna see your face, you better disappear…
So beat it. Just beat it.
Eles disseram a ele não volte mais aqui
Não queremos ver a sua cara, é melhor você desaparece...
Portanto, caia fora. Caia fora!
Então ele usa a palavra "beat" de novo, mas desta vez ela tem um significado diferente – de violência. Enquanto ele canta,
They’ll kick you, then they’ll beat you
Then they’ll tell you it’s fair
So beat it. But you wanna be bad
Eles chutarão você, daí, baterão em você
Daí eles dirão a você que isso é justo
Então, caia fora. Mas você quer ser durão.

Assim, nesta seção, ele introduz um novo significado de "beat" ("eles vão bater em você"), mas logo em seguida evoca o significado anterior ("Então caia fora"). Então, ele quer as duas definições estejam em jogo simultaneamente.
Então, naturalmente, há uma terceira definição de "beat", que é a batida da música – e mais importante, é a música que resolve a violência entre as gangues. Portanto, neste sentido, "Beat It" significa criar um ritmo, como bater um tambor. E, finalmente, há uma quarta definição de "beat", que é ser vitorioso. Por exemplo, se alguém é diagnosticado com câncer e o supera, nós dizemos que ele "Beat It", que "venceu" o câncer.
Para mim, este é o significado predominante que é evocado no refrão, repetido em círculos no final: "Mostrando como funk forte é a sua luta... Vença!"
Então, essas palavras passaram por uma revolução completa. Não é mais dito ao personagem principal para perder, para “cair fora”. Em vez disso, ele saiu vitorioso sobre a violência de gangues através do poder da música dele – ele está "Vencendo", mostrando como "funky forte" ele é – mas é um tipo diferente de força. Não é a força violenta das gangues, mas o poder "funky" do artista. Mas, enquanto o significado das palavras "Beat It" muda drasticamente ao longo da canção, ainda ouvimos os ecos dessas definições alternativas, bem como, o que dá aquele refrão repetido até a o fim uma profundidade tremenda.
Joie: Willa, eu concordo com você que ele era muito hábil em na escolha das palavras dele e possuía uma consciência poética das palavras. Como indiquei antes, durante o nosso post sobre In The Closet It, acho que Michael era muito deliberado sobre as palavras que ele escolheu para usar nas letras dele, a fim de pintar um quadro certo ou transmitir uma determinada mensagem, e "In the Closet" é um grande exemplo disso.
Willa: Oh, até o título é um grande exemplo. Ele levou um eufemismo comumente usado para homens gays e mulheres lésbicas que mantêm seus relacionamentos e orientação escondidos da visão pública, e deslocou o significado dessas palavras, ligando-as a um tipo diferente de relacionamento em segredo.
Joie: Outro grande exemplo é "Best of Joy", do álbum póstumo Michael. Desde a primeira palavra que ele profere naquela música eu estou cheia de um sentimento de reverência, paz e amor incondicional; e eu realmente acredito que é a mensagem que ele estava tentando transmitir com essa canção. Eu adoro essas letras:
I am your joy
Your best of joy
I am the moonlight
You are the spring
Our love’s a sacred thing
You know I always will love you
I am forever
Eu sou sua alegria
O melhor da sua alegria
Eu sou a luz da lua
Você é a primavera
Nosso amor é uma coisa sagrada
Você sabe que eu sempre amarei você
Eu  para sempre estarei

Não tem como ser muito mais poético que isso! Essa música me tira o fôlego e deixa-me em lágrimas cada vez que a ouço.
Outro exemplo muito bom é "Speechless". A letra dessa música é simplesmente linda:
Helpless and hopeless, that’s how I feel inside
Nothing’s real, but all is possible if God is on my side
When I’m with you I’m in light, but I cannot be found
It’s as though I am standing in the place called Hallowed ground
Speechless, speechless, that’s how you make me feel
Though I’m with you I am far away and nothing is for real
I’d go anywhere and do anything just to touch your face
There’s no mountain high I cannot climb
I’m humbled in your grace

Desamparado e sem esperança, é como me sinto por dentro
Nada parece real, mas tudo é possível se Deus está ao meu lado
Quando eu estou com você, eu estou na luz, mas eu não posso ser encontrado
É como se eu estivesse em um lugar chamado Hallowed ground
Sem palavras, sem palavras, é como você me faz sentir
Embora eu esteja com você eu estou distante e nada é real
Eu iria a qualquer lugar e faria qualquer coisa apenas para tocar o seu rosto
Não há montanha tão alta que eu não possa escalar
Eu sou humilde diante de sua graça


Willa: Eu concordo. Eu particularmente adoro a cadência das palavras dele – como eles caem e fluem – e ele canta tão lindamente. Mas você sabe que é interessante é que, ironicamente, esta canção é sobre a incapacidade dele de expressar-se e colocar os pensamentos e sentimentos dele em palavras. Enquanto ele canta,
Eu não tenho as palavras aqui para explicar
Perdia é a graça das expressões da paixão
Assim, apesar da eloquência das palavras dele, ele ainda se sente "sem palavras" para expressar toda a gama de sentimentos dele.
Joie: E, apesar disso, ele é constantemente acusado de mediocridade como compositor.
Willa: Sério? Eu sabia que a composição dele tende a ser negligenciada. Muitas vezes as pessoas elogiam o canto e dança dele, mas não a composição. Mas eu não sabia o que realmente era chamada de medíocre. Isso não faz sentido para mim.
Joie: Eu não entendo. Quero dizer, mesmo em "Don’t Stop ‘Till You Get Enough", que foi o primeiro hit que ele escreveu, a "a eloquência das palavras dele" como você colocou, é surpreendente. O homem está falando sobre algo tão básico e simples como o desejo sexual, mas ele faz isso de uma maneira tão sutil e poética que o fato de ele falar sobre sexo é quase esquecido.
Willa: Oh, você sabe como me sinto sobre "Don’t Stop"! Mas falando de "Speechless" faz-me lembrar de outro aspecto, muito especial das composições dele. Você sabe, o que talvez me atraia mais nas músicas de Michael Jackson e as torna tão atraente para mim é a maneira como ele dá voz aos sem voz – para aqueles que estão "sem palavras" e têm sido tradicionalmente excluídos do discurso público. Nós vemos isso, cada vez mais, no trabalho dele.
"Beat It" e "Bad" dão voz aos jovens negros que crescem no subúrbio da cidade, lutando para evitar a violência das gangues e simplesmente permanecer vivos ("Você tem que mostrar a eles que você não está realmente assustado"). "Smooth Criminal" dá voz a uma jovem assassinada no apartamento dela, bem como para aqueles que se preocupam com ela ("Annie, você está bem?").
"Dirty Diana" dá voz tanto a uma estrela do rock quanto a uma groupie em quase igual medida ("Eu vou ser seu tudo, se você me faz uma estrela"). "Morphine" dá voz a um viciado em drogas ("Eu estou indo para baixo, baby").
E "Earth Song" dá voz a todos aqueles – tanto humanos quanto não humanos – a quem foi negada uma voz ("E quanto a nós?"). Essa preocupação com aqueles sem voz e a insistência dele de que a voz deles importa, era uma característica definidora da composição dele, eu acho, e que ressoou com os ouvintes ao redor do mundo.
Joie:  Hmm. Você está certo, Willa. Dar voz aos sem voz era um tema recorrente na música dele, e ele usou cuidadosas escolhas de palavras dele, maravilhosamente, a fim de fazer isso.
Mas, acho que o verdadeiro problema com isso para mim é que, eu não entendo como os críticos podem ignorar totalmente o fato de que Michael escreveu algumas das canções mais emblemáticas da nossa história e ainda assim, eles ainda se recusam a reconhecê-lo como um compositor de qualquer grande mérito.
Isso só não computa para mim. E eu me pergunto se a linha de fundo aqui é que isso é simplesmente mais do mesmo tratamento sarcástico que ele suportou em outros aspectos da vida e carreira dele. "Ele é diferente, ele é estranho, ele é esquisito, vamos confiná-lo e minimalizar todos os esforços dele em todos os sentidos."
Willa:  Eu não sei. Eu poderia especular sobre uma série de razões diferentes porque os críticos poderiam ter reagido dessa maneira, mas isso seria apenas especulação. Eu realmente não sei. Mas é interessante para mim como os fãs, os críticos e o público em geral tendem a responder a ele de maneira tão diferente, e eu me pergunto se é uma função do envolvimento emocional. Você sabe, Michael Jackson pode realmente ter você a lugares, se você o permite, mas você tem que estar disposto a deixar que ele a leve até lá.
Tenho a impressão de que muitas vezes, os críticos abordam artistas, não apenas Michael Jackson, mas todos os artistas com uma atitude cautelosa. É como se eles estivessem ali de pé com os braços cruzados pensando, “OK, amigo, me mostre o que você pode fazer. Tente me impressionar.” E se você se aproxima dele desse jeito, você pode ser surpreendido pela incrível variedade da voz dele ou a fluidez dos movimentos de dança dele – Os tipos de coisas óbvias que os críticos tendem a reconhecer – mas você vai perder toda a profundidade e complexidade e força emocional do trabalho.
Para ver e sentir os aspectos do trabalho dele, você realmente tem que se envolver com ele e explorar o que está acontecendo, e permitir-se ser atraído por isso, emocionalmente. E a maioria dos críticos simplesmente não estava disposta a fazer isso. Mas os fãs dele estavam.
Isso meio que volta ao que já dissemos antes – podemos vê-lo de maneira diferente porque o amamos. Com um artista tão complicado e desafiador como ele é, eu não tenho certeza se é possível sequer começar a entendê-lo ou apreciá-lo, a menos que você o ame e "se renda" a ele. E nós nos rendemos.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Mesa Redonda: O Que Faz Um Compositor ?


Mesa edonda: O Que Faz Um Compositor ?

Mais um diálogo entre Joie e Willa; com participação de Joe Vogel e Charles Thompson.
Traduzido por Daniela ferreira

Um par de semanas atrás o nosso amigo Joe Vogel colocou uma pergunta interessante para Willa, eu e o jornalista Charles Thomson. Charles, é claro, é o autor do artigo maravilhoso, “Um dos Mais Vergonhosos Episódios da História do Jornalismo”, entre outros. Assim, a pergunta Joe provocou uma discussão muito animada entre nós quatro, e você pode ler a conversa abaixo.
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Vocês acham que o fato de que MJ não era um músico tecnicamente treinado e não sabia ler / escrever música o diminuiu como um compositor? E como vocês responderiam aos críticos que fazem esta reivindicação?

Joie: Hmm. Joe, essa é uma pergunta muito boa. E isso me fez pensar sobre todos os grandes talentos que geralmente pensamos como compositores prolíficos em nossa sociedade. E então comecei a fazer uma pequena pesquisa sobre este tema e fiquei realmente surpresa ao saber que muitos aos quais nós outorgamos esse manto, nunca aprenderam a ler ou escrever música também. Nomes como Bob Dylan e Paul McCartney. Na verdade, nenhum dos Beatles poderia ler música, nem mesmo o grande John Lennon. E Paul disse em uma entrevista, uma vez, que desde que ele e John soubessem os acordes que eles estavam tocando e se lembrassem da melodia, eles nunca teraim qualquer necessidade de escrevê-la ou lê-la.
Nenhum dos irmãos Gibb, que eu acho que escreveu algumas das músicas mais belas que existe, sabia ler ou escrever música também. Então não, eu não acho que o fato de que Michael não poderia ler / escrever música diminui o seu talento como compositor de qualquer forma, e se esse é o argumento de que os críticos estão usando para negar-lhe um lugar nessa lista com os outros "grandes", então eu diria que o argumento deles, claramente, não retém água.
E eu teria que acrescentar que eu realmente não entendo esta crítica, e talvez isso apenas reflita a minha própria falta de conhecimento sobre como compor música realmente funciona. Mas parece-me que a parte importante do processo criativo é ter as ideias, e uma visão de como expressar essas ideias a uma audiência, para que ela realmente sinta o que você está tentando dizer. Escrever notas em papel é apenas uma maneira de capturar as suas ideias musicais, para que você possa lembrar-se deles mais tarde, ou compartilhá-las com outros músicos, e Michael Jackson era capaz de fazer isso de outras maneiras. Ele podia gravar as ideias dele em um gravador, ou ele poderia cantar ao vivo. Há uma citação maravilhosa sobre isso em seu livro, Joe, que me fascinou:
"Uma manhã [Michael] veio com uma nova música que tinha escrito durante a noite", lembra o engenheiro assistente Rob Hoffman. “Nós chamamos um guitarrista e Michael cantou cada nota de cada acorde para ele. ‘Aqui está o primeiro acorde; primeira nota, segunda nota, terceira nota. Aqui está o segundo acorde; primeira nota, segunda nota, terceira nota’, etc. Em seguida, nós o testemunhamos dar o mais sincero e profunso desempenho vocálicol, ao vivo na sala de controle, através de um SM57. Ele nos cantaria um arranjo de cordas inteiro, cada parte. Steve Porcaro uma vez me disse que testemunhou [Jackson] fazendo isso com uma seção de cordas na sala. Tinha tudo na cabeça, harmonia e tudo. Não apenas pequenas oito ideias de bar loops de barras. Ele realmente cantou todo o arranjo em um gravador de microcassete completo com paradas e preenchimentos.”
Eu amo isso! Para mim, ter essa visão em sua cabeça é a essência da composição. Para dizer que Michael Jackson não era realmente um compositor, porque ele não sabia como escrever notas em papel é como dizer que Jane Austen não era realmente um romancista, porque ela não sabia como digitar. Isso é tudo é escrituração complicada de coisas, parece-me. Tendo as ideias e ser capaz de expressar essas deias com paixão e sugestivamente para uma plateia é o que é importante.
Charles: Ídolo Michael era James Brown, que famosamente não sabia ler nem escrever música, também. Provavelmente, não é por acaso que Michael adotou o método de Brown, portanto, de se cercar de colaboradores talentosos que poderiam trazer a visão dele à vida baseada em beatboxing, scatting, cantarolando, cantando, e assim por diante, mas também trazer as contribuições deles próprios para a mesa.
Michael, sem dúvida, não tinham autonomia como artista graças à incapacidade de ler ou escrever música. Isso não é uma crítica, é a verdade de qualquer pessoa na mesma posição. Eu vou correr o risco de um linchamento, elevando o Prince como uma comparação. Prince não só pode escrever uma composição inteira, em termos musicais, mas em seguida, ir para o estúdio e tocar todos os instrumentos exatamente como ele quer, em seguida, colocá-lo todos juntos. É inegável que o Prince, por exemplo, dessa forma, tinham mais autonomia e independência como artista.
Joie: Bem, não se preocupe, Charles, você está seguro aqui, pois eu realmente me considero uma fã casual de Prince. Ele é um músico fantástico e muito digno de reconhecimento. E eu concordo com sua afirmação de que ele certamente gosava mais autonomia e liberdade que Michael.
Willa: Mas isso era porque o Prince sabia ler e escrever música, ou porque ele podia tocar instrumentos? Afinal, quando você escreve uma nota de música, ainda deixa muita margem para interpretação. Alguém que poderia escrever música, mas não tocar instrumentos, ainda precisaria contar com uma sala cheia de colaboradores, mas isso parece ser uma questão totalmente diferente para mim.
Joie: Esse é um ponto muito bom, Willa. A autonomia de Prince provavelmente tinha muito mais a ver com o fato de que ele é mais do que proficiente em muitos instrumentos musicais e menos a ver com o fato de que ele pode ler e escrever música. Se ele não tivesse tido a capacidade de reproduzir todos os instrumentos, as coisas certamente teriam sido diferentes.
Charles: Mas, se você colocar Michael em uma sala sozinho, ele não poderia ter criado a maioria de faixas dele e fazê-las soar como elas soam nos álbuns acabados. pegue "Billie Jean". Todos os elementos-chave da música estão lá na demo original dele, mas a equipe de colaboradores dele ajudou a polir e apertar a composição. Bruce Swedien, por exemplo, surgiu com a ideia de usar uma luva especial para conseguir aquele o som icônico no tambor.
Nada disto visa diminuir a capacidade de Michael como compositor. Basta olhar para o catálogo de clássicos compostos por ele. A maioria dos atrtistas pop nunca emplacaram bem mesmo um quarto dos sucessos de Michael emplacou, muito menos com composições de autoria dele.
Joie: Isso é muito verdadeiro, Charles. De fato, 17 dos 28 tops 10 de singles dele, como artista solo, foram escritos por ele. E 9 dos 13 Number One Hits dele, como um artista solo, foram escritos por ele. Isso é muito impressionante, e como você disse, é algo único entre os artistas pop.
Mas eu quero voltar um segundo para o que você disse sobre a colocação de Michael em uma sala sozinho. Recentemente, eu estava ouvindo a versão demo de “Don’t Stop 'Til You Get Enough" para outro post que Willa e eu estávamos trabalhando. Essa demo foi feita apenas por Michael e os irmãos dele, Randy e Janet. E eu fiquei realmente impressionada com o quão perto essa demo é da versão final que acabou no álbum finalizado. Essa música foi praticamente concluída antes que ele apresentasse a Quincy Jones e os outros colaboradores dele, para "polir". Assim, mesmo que você provavelmente está correto em dizer que ele não poderia ter criado a maioria das faixas dele e conseguir que elas soassem da forma como soam nos álbuns acabados, eu tendo a acreditar que ele poderia ter conseguido que ficassem bem próximo.
Charles: A demo "Don’t Stop ‘Til You Get Enough" é muito impressionante, mas como você diz, ele não está no estúdio sozinho. Ele tinha instrumentistas lá para ajudá-lo, e, embora os elementos essenciais da composição estejam presentes, eles não estariam se aqueles instrumentistas não estivessem lá, e a composição global, não teria a polidês ou o brilho que ele foi capaz de alcançar, quando trabalhando com os colaboradores altamente flamejantes dele.
Voltando ao heró dei Michael, James Brown: Tornou-se moda, por um período, tirar de James Brown toda a responsabilidade pelas composições dele.
Críticos afirmam que ele “andava nos rastros” dos colaboradores dele e que, sem o conhecimento deles, ele nunca poderia ter produzido a música que ele produziu. Mas passei muito tempo ao longo dos anos entrevistando colaboradores do Sr. Brown, de todas as diferentes fases da carreira dele. Eu nunca encontrei alguém que não acreditasse que James Brown era um gênio ou que acreditasse que qualquer uma daquelas músicas  teria existido sem ele.
Quando eu o entrevistei Pee Wee Ellis, ele me disse:
"Ele era um colaborador definitivo, uma forte influência, um líder. Ele tinha uma visão que não veremos novamente nesta vida. Ele foi o homem mais funk no mundo. Ele tinha mais ritmo em seu dedo mindinho que a maioria de nós tem em nosso corpo. Apenas o material natural, você sabe. E a maneira como ele liderou a banda. Se qualquer coisa, a banda caminhou nos rastros dele. Mas a banda proporcionou uma plataforma para ele ser capaz de fazer isso."
Eu vejo Michael de forma semelhante. Nenhuma desstes hists definidores de gênero que ele escreveu poderia ter existido sem a visão dele, mas nenhuma delas existiria como elas existem, se ele não tivesse tido a equipe certa de pessoas em volta dele para fazer a visão dele uma realidade. A incapacidade de ler ou escrever música não o impedia, desde que ele tinha pessoas ao redor dele para interpretar e trazer essas ideias à vida.
Joe: Este é um ponto muito bom, Charles, e algo que eu tentei trazer para fora em Man in the Music. Nós temos essa ideia enraizada em nossa cultura, de que fazer algo de forma isolada é mais admirável que fazê-la de forma colaborativa (o mito do "gênio solitário"). Assim, os críticos se maravilham com um artista como o Prince, que pode, basicamente, ter uma faixa desde a concepção até a conclusão, sem colaboradores. Não que isso não seja impressionante (é), mas eu gostaria de comparar fazer um álbum com dirigir um filme: um diretor é  melhor se realizar cada papel da criação dele (roteiro, câmera, figurino, iluminação, atuação, etc) ? Ou o que faz um grande diretor é a capacidade de reunir uma equipe criativa e orientar um projeto com avisão global dele e paixão?
Willa: Essa é uma excelente analogia, Joe, eu acho, e muda a definição de "compositor" para algo muito mais próximo ao processo de Michael Jackson. Ele não saiu da tradição Tin Pan Alley de criação de partituras, que depois eram vendidas para um cantor ou músico. Isso é como Neil Diamond, por exemplo, tem o início dele – escrevendo canções para uma editora – e, historicamente, um monte de grandes cantores / compositores vieram dessa tradição. Michael Jackson veio de um fundo muito diferente, e a abordagem dele foi muito mais holística que isso. Ele não apenas escreveu canções e, em seguida, as entrgou para que outra pessoa a produzissem. Quando ele criava uma música, ele tinha uma visão de como ele queria que a peça final fosse e depois guiava todo o processo produtivo para alcançar essa visão, bem como um diretor de cinema faria. Então eu acho que a comparação funciona muito bem.
Joe: Estou feliz que você trouxe James Brown, Charles, porque eu sei que você tem feito muito trabalho em cima dele e há certamente um monte de paralelos. Eu encontrei o mesmo sentimento que você encontrou com os colaboradores de Brown ao falar com os colaboradores de MJ. Eles não consideram que a dependência dele por músicos, produtores, engenheiros o diminua como um artista, de forma nenhuma. Todos eles falaram sobre como ele estava envolvido em todas as fases do processo criativo, mas também como ele iria dar-lhes espaço e liberdade, eles conversaram sobre a química criativa e como a mágica muitas vezes ocorreu no ato de colaboração. Então você está absolutamente certo de que ele pode ter perdido algo em autonomia, mas ele também ganhou algo de inesperada inspiração sinérgica. Eu acho que Michael pegou um poiuco disso com Quincy Jones, também, porque Jones (que veio com um fundo no jazz e trilhas sonoras de filmes) foi brilhante na montagem de equipes dinâmicas e em fazê-las trabalhar bem, juntas.
Agora, para acompanhar a leitura / escrita de música, eu queria ter todos os seus pensamentos em algo. Porque você acha que Michael disse muitas vezes às pessoas que aprender a ler / escrever a música poderia arruinar a criatividade dele?
Joie: Bem, eu não sei muito sobre composição, mas eu imagino que se você estivesse constantemente preocupado em trabalharam algo "tecnicamente" ou não, então isso irisa meio que sugar a criatividade disso. E não só isso, mas é provável que sugue a alegria e o coração disso também.
Você estaria tão preocupado em fazer certo tecnicamente que você estaria em perigo de perder aquele fluxo criativo – aquela a magia. E todos nós sabemos que Michael era todo magia. Então eu acho que seu comentário sobre temer que isso poderia arruinar a criatividade dele foi válido. E eu acho que eu li em algum lugar onde Paul McCartney, uma vez, expressou uma preocupação semelhante, é possível que os dois até tenham falado sobre isso.
Willa: Essa é uma pergunta muito interessante, Joe. Eu posso dizer que você é um bom professor! Para ser honesta, o medo de que aprender a escrever a música iria diminuir a criatividade dele não faz muito sentido para mim. Afinal, não parece ter prejudicado Mozart ou Beethoven ou Bach demais. Notação musical é simplesmente uma forma de músicos se comunicarem uns com os outros, e se você expressar suas ideias musicais seja cantando em um gravador ou escrevendo notas em papel não deve fazer muita diferença.
Mas eu concordo com Joie. Se eu tivesse que adivinhar, eu imagino que o medo tinha algo a ver com o cálculo dos tempos por compasso e acertar a tonalidade e certificar-se que "trabalhou ‘tecnicamente’", como você colocou, Joie. Eu sei que quando se fala sobre a dança, ele disse algumas vezes que ele iria assistir a dançarinos e ele realmente poderia vê-los contando mentalmente as batidas. E ele disse que simplesmente não funciona. Você tem que treinar e treinar e praticar até os passos tornam-se arraigados em você, então quando você está executando o seu foco está em sentir a música e expressar as ideias e as emoções da música através de seu corpo, e não sobre os detalhes técnicos de "um, dois, três, deslisa".
E eu imagino que ele sentia o mesmo sobre aprender a escrever partituras. Leva anos para tornar-se proficiente o suficiente nisso para que isso se torne uma segunda natureza e você possa fazer isso sem contar as batidas em sua cabeça, por assim dizer. Entretanto, seria apenas entrar no modo de sentir a música, e por que se preocupar com isso, quando ele já tinha métodos muito eficazes para comunicar as ideias dele com outros músicos?
Charles: É um ponto interessante sobre se o conhecimento técnico dificulta a criatividade e a pessoa que vem imediatamente à mente, mais uma vez, é James Brown. A falta de um monte de conhecimentos técnicos, em minha opinião, ajudou o senhor Brown. Ele falou uma e outra vez sobre como a música dele era toda sobre o sentimento.
Várias das maiores gravações de James Brown contêm erros, mas ele não se importava, porque para ele era tudo sobre a energia. Mais frequentemente do que não, ele iria liberar a primeira tomada, mesmo que contivesse erros. "A primeira tomada é Deus", ele diria. "A segunda tomada é o homem."
Willa: Que grande citação! Embora ela também destaque a diferença entre Michael Jackson e James Brown. Michael Jackson não hesitava em gravar 50 tomadas, se é isso o que iria demorar em conseguir o som que ele queria.
Charles: No documentário Soul Survivor, vários colaboradores do Sr. Brown disse que a nível técnico, muito das músicas dele era "errada":
"Você não pode contar [isso], você não pode escrever [isso], porque viola todas as regras musicais... coisas tão simples como 1, 2, 3, 4 – se não funcionava com o que ele está fazendo, então ele pode ir 1, 2, 3-e-uma-metade."
O Sr. Brown, quando lhe contaram que a sua música dele era "errada", respondeu: "Mas soa bem. Deus deu-lhe os ouvidos. Você vai discutir com os ouvidos de Deus? "
Fred Wesley, um dos arranjadores do Sr. Brown, falou no passado sobre como ele se sentia envergonhado quando os fãs costumavam vir até ele e lhe dizer o quanto eles adoraram a faixa "Pass The Peas." Wesley sentia que a faixa, em um nível técnico, era lixo. Mas a música ainda é amada em todo o mundo de hoje. Princw regularmente a toca em nos shows deles. É muitas vezes a maior multidão para agradar a qualquer Maceo Parker, Fred Wesley, ou Pee Wee Ellis show. Wesley pode tê-la considerado, tecnicamente, nada espetacular, mas tocava as pessoas. Ela entra nelas, faz com que sorriamr, fez com que se movam.
Se James Brown tivesse jogado pelas normas técnicas, poderia nunca ter encontrado a música funk. Sem funk, nós nunca teríamos ouvido falar de disco ou do hip-hop. James Brown quebrou as regras e mudou o mundo. Vinte anos mais tarde, quando Michael Jackson gastou todo aquele dinheiro no vídeo Thriller, todo mundo pensou que o cérebro dele tinha amolecido. Ele também quebrou as regras e mudou o mundo.
Talvez Michael visse as regras de escrever música como opressivas. Se ele não sabia o que eram os principais obstáculos, ele não poderia ser confinado por eles.
Joie: Eu amo o jeito que você colocou, Charles! "Se ele não sabia o que eram os principais obstáculos, ele não poderia ser confinado por eles." Isso é uma maneira muito profunda de se colocar.
Willa: Eu concordo.
Joie: E você está tão certo sobre James Brown. Sem ele o funk poderia nunca ter existido e, em seguida, toda a paisagem do cenário musical poderia parecer muito diferente hoje.
Willa: Vocês, pessoal,eu sinto que estou tendo um momento de grande bulbo de luz. Isto é tão fascinante para mim. E Charles, eu acho que estou apenas começando a entender o que você tem dito. Você não está falando apenas de desembolsar anotações em uma página. Você está falando sobre ser treinado nas "regras" da tradição da composição ocidental e internalizar essas regras – e James Brown quebrou o ritmo e quebrou as regras dessa tradição.
Eu estava conversando com uma professora de música há muito tempo – talvez há 15 anos – que gostava de compor músicas em um teclado que estava ligado ao computador dela. Ela me mostrou este software que ela tinha, com o qual ela poderia tocar uma música e o software poderia levar o que ela fez e gerar automaticamente a partitura para isso. Era muito legal. Você pensaria que haveria uma série de ajustes e limpeza para acertar, mas realmente não havia. Era muito limpo. Ela disse que há algo satisfatório em escrever notas em uma partitura, mas pode ser entediante depois de um tempo e este software permitia que ela gerarasse partituras tão facilmente quanto jogar. Ela poderia se concentrar apenas na música e depois a partitura, magicamente, estaria lá, quando ela tivesse ido.
Eu estive pensando sobre ela durante esta conversa toda e pensando, isto não é grande coisa. Se você está trabalhando com músicos que podem tocar de ouvido, então você não precisa de partituras. Se você estiver trabalhando com um violoncelista com formação clássica, por exemplo, ou alguém que realmente quer partituras, então é só comprar algum software ou contratar um estudante de graduação para anotar as notas. De qualquer maneira, não é grande coisa.
Mas, claro, que a professora de música estava completamente mergulhada na tradição ocidental de composição, por isso tudo que ela compunha, consciente ou inconscientemente, caia dentro das convenções daquela tradição. O computador não tinha nenhuma dificuldade em reconhecer a estrutura da música dela e colocava as notas e pausas com um grupo exatamente onde deveriam estar, porque tudo o que ela jogava cabia dentro das regras que ele esperava que ela jogasse.
Mas o que fazer quando o computador de James Brown vem e joga uma distorção temporal no meio de um compasso? Estou tendo esta imagem mental, muito engraçada agora de um computador zumbindo e apitando, tentando pôr-se
 em marcha através de uma canção de James Brown.
Joie: Willa, você é hilária. Eu juro, você me racha, às vezes! Mas você está certa; isso faz pintar um quadro mental divertido – este computador tendo um colapso nervoso tentando manter-se com os grunhidps de James Brown e as vocalizações não-verbais. Isso é histérico!
Willa: Isso é engraçado, Joie! É como se computador de James Brown estivesse imitando James Brown – o mais difícil trabalho de computador em um laboratório de música. Todos os outros computadores estão serenamente trabalhando através de Mendelssohn e Brahms, e o computador James Brown  está balançando e estalando. E você pode imaginar o que faria se estivesse tramando uma música em tempo 4/4, e, de repente, batesse um compasso com 3 batidas  e meia?  Iria explodir os circuitos pequenos dele.
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Joe: Eu só quero acrescentar a essa discussão que parte da demissão de Michael Jackson como artista, em minha opinião, tem a ver com esse entendimento Branco, Eurocêntrico, da música e uma ignorância (ou demissão) da estética afro-americana. Parte disso tem a ver com o que estamos falando: desviar-se das formas e técnicas.
O que James Brown fez não é diferente do "swing" e os músicos de jazz de improvisação injetaram em melodias tradicionais. Esses foram os desvios de tradições há muito tempo estabelicidas, que levou tempo para as pessoas reconhecem como legítimas. Por um longo tempo, foi considerada uma forma muito rasteira de entretenimento. Essa é muitas vezes a reação à inovação artística.
Willa: Com certeza. Vimos isso várias e várias vezes. Quando o romance foi desenvolvido pela primeira vez, foi considerado "arte inferior" e dramas sérios, poesia e ensaios eram "arte inferior". Em seguida, quando os filmes foram introduzidas pela primeira vez, eles foram considerados "arte inferior" e romances sérios eram "arte elevada”. Hoje, vídeos de música são considerados "arte inferior" e sérios longas-metragens são “arte elevada”, apesar de os vídeos de Michael Jackson desafiatem isso claramente.
Você fala sobre o preconceito contra novas formas de arte em seu artigo Atlântico, Joe http://themaninthemusic.blogspot.com.br/2012/02/o-mal-interpretado-poder-da-musica-de.html – especificamente gêneros musicais novos nos EUA – e mostrar que não é apenas um preconceito contra as novas formas, mas também alguns preconceitos raciais arraigados raciais também:
Historicamente, esta demissão de artistas negros (e estilos negros) como algo de pouca profundidade, substância e importância, é tão antiga quanto a América... Era uma crítica comum de spirituais (em relação aos hinos tradicionais) do jazz nos anos 20 e 30, de R & B nos anos 50 e 60, do funk e disco, nos anos 70, e do hip-hop nos anos 80 e 90 (e ainda hoje). Os guardiões da cultura não só não conseguiram inicialmente reconhecer a legitimidade desses novos estilos e formas musicais, eles também tendem a ignorar ou reduzir as realizações dos homens e mulheres afro-americanos e que abriram o caminho deles. O Rei do Jazz, para os críticos brancos, não foi Louis Armstrong, foi Paul Whiteman, o Rei do Swing não era Duke Ellington, Benny Goodman era, o Rei do Rock não era Chuck Berry ou Little Richard, era Elvis Presley.
E como você mostrou tão claramente em seu artigo, este padrão claramente estende-se a Michael Jackson também. Ele era tão inovador em tantas frentes, e ele teve que lutar contra essa tendência em duas frentes contra inovadores negros ao longo da carreira adulta dele.
Joe: Então, eu acho que isso informa que Jackson foi mal recebido e mal interpretado. Ele muitas vezes funde estilos negro e branco em formas fascinantes (veja "History" e "Will You Be There", por exemplo). Mas ele está enraizado na tradição afro-americana. É por isso que é um erro dos críticos julgar a música dele em comparação a artistas como Dylan ou Bruce Springsteen ou Bono ou Costello (todos os queridinhos da crítica), porque Jackson não é esse tipo de artista. Seria como esperar que Langston Hughes escrevesse poemas como Robert Frost. Não é que as letras de Jackson não sejam poéticas, é que ele está se comunicando de uma maneira diferente.
Parte da grandeza dele está em movimentar-se para além das palavras (como os spirituais e os blues e jazz fazen), que são as vocalizações nãoverbais dele – os gritos dele, as exclamações de alegria, os suspiros, as scattings, a beatboxing, a capacidade dele em se tornar a música. Na verdade, mesmo quando ele usa a linguagem, muitas vezes ele torce e contorce as palavras, ou as distribui com frescor, nuance e intensidade que as linhas tornam-se mais do que a soma das partes. Stevie Wonder disse uma vez que Jackson tinha uma incrível capacidade de "ler" a letra. Em outras palavras, ele teve a capacidade de injetar palavras comuns com algo muito mais profundo.
A música é, em última análise, sobre a expressão e comunicação e, para mim, as canções (e performances) dele transmitem muito maior escala emocional que a maioria dos artistas.
Joie: Concordo com você, Joe. Michael é todo emoção e intensidade. Isso está sempre ali logo abaixo da superfície em cada vídeo e performance ao vivo, em todas as faixas de cada álbum. Você não parece ter esse tipo de emoção crua com a maioria dos outros artistas.
Joe: Outra coisa que faz Jackson um grande compositor é que ele tinha esta capacidade incrível de se comunicar através de todas as barreiras que normalmente divide as pessoas (raça, gênero, sexualidade, linguagem, cultura, classe social). Ele estava constantemente fundindo. Rock e R & B, hip hop e pop, gospel e clássica. Ele era ao mesmo tempo acessível e desafiador, simples, mas multi-facetado. Ele trouxe Beethoven para as massas, e a música de rua para os bairros nobres.
Joie: Eu acho que é um belo pensamento para terminar, Joe. E, Willa e eu queremos agradecê-lo por se juntar a nós nesta conversa!
Na próxima semana, Willa e eu vamos investigar o livro Dancing the Dream, livro de poemas e ensaios de Michael, por isso não deixe de voltar para essa discussão.